terça-feira, setembro 6

O meu primeiro “Derby” em Alvalade (Parte II)


Recomeçou a partida. Lagartos e Lampiões, mimavam-se com os pregões e gritos de guerra do costume, arrancando sorrisos entre a assistência e mesmo entre os polícias, que não perdiam a oportunidade de dar uma bicada na preferência clubista do camarada do lado. O Nogueira, rapaz do Marco de Canavezes, indefectível benfiquista, já me tinha lançado umas farpas e eu ia-lhe respondendo com umas bordadas dignas de leão, quando a nossa disputa verbal foi interrompida pelo comandante da força, informando que poderíamos ir comer algo assim que chegassem os agentes que já tinham ido fazê-lo. Agradecemos e aguardámos a sua chegada, para podermos aquecer a fornalha, que já pedia combustível. Enquanto vinham e não vinham, observávamos um colega, que de forma insistente se baixava e esfregava os gémeos. Era o nosso “sindicalista” – à data, ainda não havia liberdade sindical, nem mesmo associativa na PSP – um veterano na casa dos cinquenta e muitos anos, grande lutador, desde a primeira hora, dos direitos socioprofissionais dos polícias e precursor das primeiras lutas da classe em prol da causa e que além da alcunha de “sindicalista” era mui respeitosamente designado por “velhote”.

- O velhote anda mesmo nas últimas. É triste, com uma idade destas ainda se arrasta pelo piquete e na a bola! – disse o Nogueira em tom indignado.

- Sabes que a contestação, a maioria das vezes paga-se cara, cá na casa – respondi continuando – não sei porque não faz uma exposição ao comando a comunicar a situação; com esta idade já deveria andar mais resguardado. Mas parece que anda aqui por gosto, mesmo sem poder…

- Sacanice é o que é. Repara, já não deve poder com as pernas. Não pára de se baixar e mexer nos tornozelos e ninguém vê estas coisas, ou melhor, vêem mas estão-se nas tintas. Claro que o homem podia dar menos nas vistas. Em vez de circular no perímetro, insiste em andar ali, em círculos, ao alcance dos gajos da Juveleo. Não tarda nada, cai-lhe o gradeamento em cima ou sujeita-se a levar com um pêro!

Estávamos nós nesta conversa, e chegou a ordem:

- Quinze minutos, meus senhores – gritou o subchefe – nem mais um segundo.

Lá fomos nós, cinco agentes esfomeados a caminho da carripana das bifanas do Mário. O “sindicalista” foi connosco.

- Já aperta a fomeca, não!? - aventei eu.

- Já comia um boi; estes filhos da mãe não se calam! Logo eu que não gramo esta gaita nem um bocadinho! Andam para aqui a ganhar fortunas e a maioria desta gente toda a tinir sem cheta. O mais bonito é que aplaudem! Vão gozar com outro, valha-me Deus! Mas há pior. Vamos mas é à bifana…

- Deixe lá, não adianta esse protesto. Eles não lhe pagam o jantar, eh, eh, eh! – atiçou Nogueira; este sabia que o velhote, embora lhe fossem reconhecidos vários valores morais e rectidão, chorava cada tostão que gastava, em especial na hora de serviço.

- Estes cabrões vão pagar isto muito caro. – replicou o Sindicalista olhando pelo canto do olho para a claque em polvorosa que nos apupava e tentava atingir com mais uma variedade de objectos – até as bifanas, sacanas - terminou entre dentes.

- Ora esqueça isso, agora vamos comer, que já falta pouco. A propósito, essas pernas estão firmes?

- Como o aço, colega, como o aço…

Chegados à carrinha do Mário, onde num ápice, cada um devorou a sua bifana regada com sumo (para não parecer mal), quando nos dispúnhamos pagar a despesa, eis que o velhote, tira a mão ao bolso cheia de moedas de 50 e 100 escudos e dirigindo-se ao empregado do tasco ambulante diz-lhe:

- Pague a despesa toda daqui.

- Só paga as bifanas, “Sô” Guarda. As bebidas, o patrão oferece… é regra da casa.

- Nada disso. Pague tudo daí, que faço questão; fica para a próxima – voltou o velho.

De nada adiantou dizer-lhe para não fazer aquilo, que a vida custa a todos, etc., mas o homem insistiu de tal forma, que nos vimos obrigados a aceitar. Pelo menos ficava o alívio de não ter feito o choradinho para as bifanas serem oferecidas!

Tínhamos acabado de regressar ao local de serviço e já o nosso sindicalista tomava de novo o seu posto, não tardando a retomar o estranho exercício de acariciar os gémeos. Ou o velho fazia ronha ou então, dava-se melhor com as caminhadas, coitado. Aproximei-me dele e tentei moralizá-lo:

- Calma, não tarda nada, isto acaba. Não deve demorar e vamos embora descansar as pernas. As minhas também já estão a dar sinal.

O sindicalista olhou-me com cara admirada.

- Não me diga, que o Cruz já está derreado com uma idade dessas?

- Não é bem isso. Estou mais com falta de paciência para estar aqui a levar com estes tipos. Preferia estar ali, na parte de cima.

- Qual quê! Aqui é que é bom, rapaz. É melhor aqui… além disso, ainda tem muitos jogos pela frente, por isso vá-se preparando... e sempre tem a vantagem de comer uma bifaninha à borla, que quer mais?

- Ora, já agora, não faltava mais nada! Agradeço a bifana, mas para a próxima paga a malta.

- Paga lá agora. Enquanto vier à bola, quem está de piquete com o velho, não precisa de trazer guita para o jantar! – riu-se ele.

- Eh, pá! Saiu-lhe o totoloto, ou quê? A vida custa a todos. Você não tem de andar para aí a pagar bifanas aos colegas…

- Quem lhe disse a si que fui eu quem pagou?

- Eu vi-o pagar – ou estava a gozar comigo, ou o velho estava a passar-se da cabeça, pensei.

- Nada disso! Isso pensa você! – tornou enquanto pela enésima vez se baixava. Afagou languidamente o gémeo da perna direita, prolongou um pouco mais o gesto da mão em direcção ao tartan da pista, apanhou algo do solo – Aos anos que não gasto um tostão na bola, desde que esteja de piquete e venha para o topo sul. Nem eu nem os colegas que estão comigo… então nos jogos grandes, é uma maravilha.

- Bolas, está visto, você é um benemérito – gracejei.

- Nada disso seu maçarico! – abriu a palma da mão, mostrando-me uma moeda de 50 escudos; era o objecto que segundos antes tinha apanhado do solo – a bicharada aí atrás, encarrega-se disso. Pena que não enviem mais das de duzentos paus.

1 comentário:

miguel disse...

looooool LINDO! dos melhores posts k já vi na blogoesfera :P PARABÉNS

 

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