quinta-feira, novembro 24

Al Qaeda quis explodir o Cristo Rei...

Al Qaeda quis explodir o Cristo-Rei em Almada

Documentos mantidos em sigilo pela Polícia Judiciária revelam que a Al Qaeda, organização terrorista de Osama Bin Laden, ordenou a execução de um atentado em Portugal. O alvo da acção seria a estátua do Cristo-Rei, localizada em Almada.

De acordo com informações obtidas hoje em Lisboa, a ordem de Bin Laden decorreu do ódio que o saudita nutre por símbolos monumentais católicos, que segundo ele representam “um símbolo da globalização dos infiéis”.

Demolidor de ídolos e iconoclasta como os talibãs que explodiram estátuas de Buda no Afeganistão, ele destacou dois mujahedins para o sequestro e uso de um avião que seria lançado contra a estátua “símbolo dos infiéis cristãos”.

Os registos da polícia Judiciária dão conta de que os dois terroristas chegaram ao Aeroporto Internacional da Portela em 4 de Setembro, Domingo, às 21h47m, no vôo da Air France procedente do Canadá, com escala em Londres.

A missão começou a sofrer embaraços já no desembarque, quando a bagagem dos muçulmanos foi extraviada. Após quase seis horas de peregrinação por diversos guichés e dificuldade de comunicação em virtude do Inglês fortemente marcado por sotaque árabe, os dois saem do aeroporto, aconselhados por funcionários da TAP a voltar no dia seguinte, com intérprete.

A Polícia Judiciária investiga a possibilidade de eles terem apanhado um táxi pirata na saída do aeroporto, pois o motorista percebeu que eram estrangeiros e rodou uma hora e meia dando voltas com eles pela cidade, até abandoná-los em lugar ermo do Casal Ventoso. Aí, acabaram por ser assaltados e espancados por um grupo de toxicodependentes desesperados.

Eles conseguiram ficar com alguns dólares que tinham escondido em cintos próprios para transportar dinheiro e apanharam boleia num camião que fazia distribuição de garrafas de gás.

Na segunda-feira, às 7h33m, graças ao treino de guerrilha que receberam nas cavernas do Afeganistão e nos campos minados da Somália, os dois terroristas conseguem chegar a um hotel do Estoril. Alugaram um carro na Avis e voltaram ao aeroporto, determinados a sequestrar um avião e atirá-lo bem no meio dos braços abertos do Cristo-Rei.

Enfrentam um congestionamento monstruoso na 2ª circular e ficam mais de 3 horas bloqueados no Campo Grande por causa de uma manifestação de estudantes e professores em greve, e na Av. Do Brasil são-lhes roubados os relógios por um gang da Zona J.

Às 12h30m, resolvem ir para o Centro da cidade e procuram uma casa de câmbio para trocar o pouco que sobrou de dólares. Recebem notas de 100 Euros falsas. Por fim, às 15h45m chegam ao aeroporto da Portela para sequestrar um avião. Os pilotos da TAP estão em greve por mais salário e menos horas de trabalho.

Os controladores de vôo também pararam (querem equiparação aos pilotos). O único avião na pista é da AIR PORTUGÁLIA, mas está sem combustível.

Tripulações e passageiros estão acantonados na sala de espera e nos corredores do aeroporto, gritando slogans contra o governo.

O Batalhão da POLÍCIA DE CHOQUE chega batendo em todos, inclusive nos terroristas.

Os árabes são conduzidos à Esquadra da PSP do aeroporto, acusados de tráfico de drogas, em face de flagrante forjado pelos próprios polícias, que “plantaram” papelotes de cocaína nos bolsos dos dois. Às 18 horas, aproveitando uma manifestação dos guardas prisionais clamando subsídio de risco, eles conseguem fugir da prisão no meio da confusão e do tiroteio das brigadas anti-motim da PSP que entretanto tinha sido destacada para o local pelo Ministro da Administração Interna.

Às 19h05m, os muçulmanos, ainda ensanguentados, dirigem-se ao balcão da TAP para comprar as passagens. Mas o funcionário que lhes vende os bilhetes omite a informação de que os voos da companhia estão suspensos por tempo indeterminado. Eles, então, discutem entre si: começam a ficar em dúvida se destruir Lisboa, no fim de contas, é um acto terrorista ou uma obra de caridade.

Às 23h30m, sujos e mortos de fome, decidem comer alguma coisa no restaurante do aeroporto. Pedem sandes de queijo com limonadas. Só na terça-feira, às 4h35m, conseguem recuperar-se da intoxicação alimentar de proporções equinas, decorrente da ingestão do queijo estragado usado nas sandes. Eles foram levados para o Hospital de Santa Maria, depois de terem esperado três horas para que a ambulância do INEM chegasse e percorresse diversos hospitais da rede pública até encontrar uma vaga. No HSM, foram atendidos por uma enfermeira feia e mal-humorada. Eles tiveram de esperar dois dias para serem examinados, por causa da cólera causada pela limonada feita com água contaminada por coliforme fecal.

Debilitados, só terão alta hospitalar no domingo.

Domingo, 18h20m: os homens de Bin Laden saem do hospital e chegam perto do estádio de Alvalade. O Benfica acabara de perder com o Sporting. A claque dos NO NAME BOYS confunde os terroristas com integrantes da JUVELEO e dá-lhes uma surra sem precedentes. O chefe da claque abusa sexualmente deles.

Às 19h45m, finalmente, são deixados em paz, com dores terríveis pelo corpo, em especial na área proctológica. Ao verem uma roullote de venda de bebida nas proximidades, decidem embriagar-se uma vez na vida e comer umas sandes de couratos (mesmo que seja pecado!). Tomam um bagaço adulterado com metanol e precisam voltar ao Santa Maria. Os médicos também diagnosticam gonorreia.

Segunda-Feira, 23h42m: os dois terroristas fogem de Lisboa escondidos na traseira de um camião de electrodomésticos, assaltado horas depois na Serra da Musgueira. Desnorteados, famintos, sem poder andar ou sentar-se, eles são levados por uma carrinha de Apoio aos Sem Abrigo, organização ligada aos direitos humanos para a área metropolitana de Lisboa. Viajam deitados de lado. Na capital novamente, deambulam o dia todo à cata de comida e por volta das 20 horas acabam adormecendo debaixo da marquise de uma loja na Rua do Coliseu, no centro. A Polícia Judiciária não revelou o hospital onde os dois foram desta vez internados em estado grave, depois de espancados quase até à morte por um grupo de SKINHEADS.

Sabe-se que a Polícia Judiciária deixou de se preocupar e vigiar estes membros da Al Qaeda por considerar que as suas intenções foram desvanecidas e já não constituem qualquer tipo de perigo à integridade nacional, e até os está a ajudar, tentando encontrar uma organização humanitária que lhes possa dar apoio para o regresso ao Afeganistão, isto tudo a pedido dos mesmos.

Rui Oliveira


terça-feira, novembro 15

O PRESENTE



A Madrugada corria calma na área de Benfica. O turno no carro patrulha era maravilhoso quando o rádio vomitava constantemente ocorrências para outras áreas enquanto na zona, as coisas estavam paradisíacas. Quando assim é, há o sentimento de dever cumprido, mas em contrapartida, a rotina alonga as horas muito para além do desejável. Na verdade, quando se tem algo para fazer de mais específico, o tempo voa e no final podemos respirar fundo e dizer, “amanhã há mais”. Seguíamos pela Av. Carolina Michaelis de Vasconcelos, a brisa fresca vinda de Monsanto entrando pelos vidros escancarados, perturbando a calmaria silenciosa que enredava casario e ruas quando de repente o Valente, o chefe da viatura policial, grita para o condutor:

- Pá, pára, está ali um gajo a fazer qualquer coisa.

O carro estacou, sem espalhafato e saímos todos para o exterior, interrogando-nos sobre o que teria visto o nosso camarada.

- O que se passa? O que foi que viste? – perguntei.

- Ali, repara, na porta daquele prédio. Não vês a cabeça de um tipo?

Agachados atrás de um carro estacionado, os três polícias miravam na direcção indicada. Efectivamente, via-se a cabeça de um indivíduo, aparentemente de cócoras, junto à porta de entrada a um prédio. Pé ante pé, evoluímos à laia de cerco, cada um por seu lado, de forma a tornearmos os veículos estacionados e surpreender o indivíduo, que não estaria a fazer coisa boa. Pelo lado que me aproximei, pude vê-lo de imediato. Oh! Ignomínia! O tipo estava estático porque tinha razões para isso. Nem ele se apercebera da patrulha policial, nem estava a roubar nada. Bastou-me olhar para o esgar de esforço (titânico, diga-se de passagem) que o fulano fazia, acompanhado de gemidos abafados por prolongadas flatulências para de imediato perceber que se encontrava em pleno acto de defecação. Grande lata; não contente com fazê-lo em plena via pública, ainda se dava ao luxo de aliviar os seus fétidos fluidos à porta de gente de bem.

- Eh pá! Que é isso, oh companheiro – gritou-lhe instintivamente o Valente perante tal falta de educação e civismo.

Se alguma dificuldade havia em levar avante a sua empresa, após ser assim abordado, com tamanha rudeza e surpresa, ela terminou logo ali, já que as palavras do polícia foram por assim dizer o “empurrãozito” final. O “parto” estava difícil, raios. Ficamos os três estarrecidos a contemplar aquele quadro. Fonseca, um conhecido ébrio do bairro, era o quadro da indignação digna do artista interrompido na concepção da sua obra e ferido em tamanha violação da sua privacidade. Ali estava ele, bamboleando perigosamente o corpo para a frente e para trás, em difícil equilíbrio, já que nestas ocasiões qualquer par de calças, mesmo de verão, é um empecilho, lembrando aquilo que terão sido os últimos momentos do Colosso de Rodes antes da sua derrocada. A custo, arrastou os pés para a frente, evitando destruir a perfumada escultura, mirando-a, como se de uma obra inacabada de Gaudi se tratasse. A bófia tinha-lhe interrompido aquele momento único de inspiração.

- Lindo serviço, sim senhor!

- Oh Senhor Valente… ia lá eu adivinhar que iam aparecer, logo agora!

- Ao menos ainda atinas; reconheces a merda que fizeste. E agora?

- Agora… agora… aí a velha, que limpe – continuou o artista, acenando com a cabeça para a janela da porteira do prédio.

Entretanto, os moradores começavam a subir os estores. Boa! O artista ia ter público e a julgar pelas caras de incómodo, não tinham sido as melgas quem tinha acordado a vizinhança. O quadro estava montado…

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Um dos moradores, decidiu vir cá abaixo. Trazia um ar de justiceiro, preparado para pôr termo ao “sururu” gerado. Na verdade, por mais que se tente ser discreto para com um ébrio, tal coisa torna-se empresa de difícil feitura; além da forma descontrolada como se exprimem, apresentam quase sempre níveis de decibéis incomodativos que em nada abonam em prol da paz e sossego urbanos, em especial à noite.

-Arre que não se pode pregar olho! Raio Srs. Guardas, não se pode resolver uma borracheira com menos barulho? – o homem, talvez devido à indignação do sonho interrompido pela algazarra, estacou na porta da entrada com ar de quem ia aplicar um correctivo a todos, polícias e garrafão.

- Boa-noite. A borracheira resolve-se… o que está à porta é que vai demorar um pouco mais – replicou Valente, olhando para o fétido presente, acabadinho de pisar pelo irritado senhor, que tanto arrebitara a sua altivez, que ficara com o ângulo de visão demasiado elevado para reparar na obra de arte.

Com uma daquelas vontades de rir às bandeiras despregadas, olhámos para o infortunado cidadão, que nem reacção teve para sair do sítio onde estacionara. O garrafão com pernas, esse olhava aterrorizado, não tanto por ver a sua criação ser espezinhada, mas por ver que a coisa ia sobrar para ele. O homem estava lívido de terror e o morador, verde de raiva. Cheguei mesmo a rezar para que o mesmo não investisse contra o “garrafão andante” já que, se ia ser desagradável conduzir este à esquadra com aquele “perfume”, pior seria ter de intervir para separar ambos caso se pusessem à pancada.

- Agora quem limpa esta porcaria toda!? – gritou o homem, prestes a explodir de raiva.

- Quem não é, sei eu – terão pensado todos os presentes (pelo menos eu pensei).

Entretanto surgira já em cena a inquilina do rés-do-chão, porteira do prédio há muitos anos e que perante tal visão ficou indignada.

- Pois, tinha de ser… tinha de sobrar para a desgraçada! Se fosse comigo, limpava esse calhordas – apontava para o embriagado, que cada vez mais via a sua vida a andar para trás – e havia de ser com a língua!

Qualquer pessoa sensata teria desaprovado tal pena a um condenado e claro, tal acto seria impraticável na presença da autoridade. Bolas, o homem não era nenhum animal! Contudo, conhecendo nós o infeliz, não seria crível que o mesmo se dispusesse a arcar as despesas da transferência da sua obra de arte e naquele momento, pô-lo a limpar o átrio da entrada, seria com toda a certeza, permitir que a sua “escultura” se diluísse e espalhasse pelo resto dos degraus à boa maneira abstracta. Surrealista já era aquela cena. Após alguns minutos de conversa, em lugar arejado e contra o vento, claro está, Dona Palmira, a porteira, ouviu atentamente o que poderiam fazer caso pretendessem apresentar denúncia contra o homem, explicando desde logo a condição de quase indigência em que este vivia e por fim lá condescendeu em limpar o degrau logo pela manhã, mas que não queria ver a brincadeira repetida. O azarado residente, que pisara a poia, atirou os chinelos para o contentor do lixo e lá regressou, a praguejar, para casa, com os restantes moradores, para retomarem os seus sonos. O Valente dirigiu-se ao bêbado. Este estava visivelmente aliviado; de umas palmadas dos moradores já se safara e agora, restava ouvir o que a “justiça” policial lhe iria ditar. E esta foi condescendente, com o pivete que exalava, pouca seria a vontade de os tipos da bófia lhe querem tocar. Após uma daquelas lições de moral, bons costumes e moralidade, das que entram a cem e saem a duzentos, claro está, lá mandámos o “garrafão” seguir à sua vida.

- Vai lá à tua vida e vê se vais tomar um banho.

- Vou já, vou já.

- Agora não te esqueças de tornar a fazer o mesmo e que eu te apanhe – lançou-lhe o Valente, em jeito de despedida e aviso – apanhas tudo para dentro dos bolsos

- Só se não puder – respondeu para si mesmo, entre dentes, esquecendo-se talvez que o seu estado etilizado ampliava a sua voz, ou então, pior que isso, convencido que o cheiro era uma couraça defensiva que afastava a vontade de intervir dos cívicos. Quem não gostou foi o Valente. Revoltado, quando pensava ter resolvido a coisa de forma aceitável, nem se importando sequer com a falta de humildade do infractor perante o facto de o ter safo de uma série de chatices, resolveu então entrar em acção com uma decisão digna de Salomão. Dirigiu-se ao porta luvas do carro patrulha, retirou um par de luvas de borracha, agarrou vigorosamente a “asa” do “garrafão” e arrastou-o até junto da sua obra de arte.

- Ai ele é isso? Então, anda cá! Podes começar a limpar…

- Limpo com quê? Com as mãos? E ponho onde, em cima de si? – respondeu o atrevido e mal agradecido homem, ao qual os vapores de álcool deveria estar a toldar novamente o juízo – limpo com?

- Vais agarrar nisso tudo com as mãos, vais guardar dentro dos teus bolsos e vais pôr-te a andar daqui para tua casa, senão…

- Quer ver que me faz apanhá-la com a boca, não?! – insistiu o ébrio, com um riso desafiador.

O Valente, olhou-o então olhos nos olhos, aguentou firme o pivete, e tal foi a intensidade e frieza das suas palavras, que o outro perdeu o sorriso, como se estivera perante a visão de uma aparição.

- Tens dúvidas?...

O tipo, ao qual o Valente só pretendera dar um último susto, perante a sua arrogância e arrojo, tomou-se de tal pânico, que limpou a entrada do prédio, tal como o Agente lhe ordenara, deixando pouco mais que vestígios para a porteira limpar, pela manhã. Seguiu o seu caminho, sem dizer mais uma palavra, com a sua “arte” na algibeira. Qualquer infractor, na posse das suas faculdades mentais normais, teria levado tão a sério uma ordem de um agente da Polícia. Se ainda restavam dúvidas que o álcool faz-nos tomar atitudes impensáveis, esta esmoreceu de vez qualquer laivo dessas dúvidas.

- Viste aquilo? O tipo é doido!...

- Doido não sei, agora que está bêbado, isso está!...

 

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