domingo, janeiro 15

O LADRÃO QUE VEIO DO AR (ou o azar de Miqueias)

Quando se fala tanto da falta de respeito para com a autoridade do Estado e em especial para com aqueles que a corporizam, vem-me à memória um episódio que demonstra bem ao ponto a que as coisas chegaram. Falta de princípios? Desespero? Falta de noção dos seus actos ou excesso de confiança na sua sorte? O relato que se segue, não mete tiros, nem danos físicos – digo eu, que não estava presente – mas suponho que arrancará alguns sorrisos a quem o ler, tal como terá sucedido a todos quanto tiveram conhecimento dos factos.

O clima andava pesado no Departamento. Não é nada agradável para ninguém chegar um dia ao seu local de trabalho e verificar que este foi alvo de uma visita de amigos do alheio. Fora isso que acontecera e a malta andava num afã terrível para deitar a mão ao autor de tal façanha. Tinham furtado uma impressora do gabinete de apoio da Esquadra e ainda um rádio-leitor de cd’s do agente Vítor. Algo nos levava a desconfiar que a obra teria sido perpetrada por um só indivíduo, já que o sítio estava pejado de maquinaria mais valiosa de menor volume. O tipo entrara pelo tecto falso e andara ali por dentro a remexer nos gabinetes, mas só levou aqueles objectos; teria ele controlado os movimentos das diferentes brigadas e aproveitado no fim-de-semana para furtar no Departamento? Só poderia ser, já que só conhecendo bem os movimentos da casa alguém poderia arriscar tal empresa e estava fora de questão ter sido alguém da equipa o responsável pelo desaparecimento dos objectos.

O Chefe estava furibundo e obrigou ao redobrar de atenção e procedimentos de segurança no local, entre os quais, passagens frequentes e inopinadas das equipas de serviço pelas instalações, em especial aos sábados, domingos e feriados para prevenir futuras “visitas”.

No sábado a seguir ao assalto, Lizandro decidiu despachar uma série de processos que lhe estavam distribuídos e aproveitou a calma da tarde desse dia para se dedicar a essa tarefa.

A estação do Rossio não tinha o bulício habitual dos dias de semana. Não se via mais ninguém além daqueles que há muito, faziam parte do quadro da entrada do Terminal. O “pulga”, sem-abrigo, com a sua farta cabeleira e barba, autêntico clone do Barry Gibb dos Bee Gees dos anos 70, alternando entre a entrada e a gare, os funcionários dos quiosques de jornais e do mini bar, os homens das bilheteiras, dois ou três taxistas à espera de clientes e os inevitáveis prostitutos e “voyeurs” de pilinhas alheias no WC da estação. Tudo normal. O dedicado agente, entrou no Departamento e logo se dispôs a dar vazão às conclusões que tinha em mão. Sentou-se em frente ao computador e começou a escrever. Só o som dos comboios e o matraquear das teclas contrastava com o silêncio da sala mas longe de distrair o rapaz que estava absorto na redacção de autos, informações, cotas e relatórios. Eis que, ao fim de algum tempo após ter iniciado o seu trabalho, algo interrompeu esta rotina de sons ambientais. Um som, vindo do tecto, despertou a sua atenção.

- Raio das ratazanas – terá pensado Lizandro – olhando para cima irritado com aqueles roedores que já lhe tinham roído um par de luvas de “motard”.

O barulho continuou e algo de estranho tinha. Não se parecia nada com o som de patas de roedor. Os gatos também não faziam barulho daqueles. Mais parecia um rastejar, mesmo ali por cima da sua cabeça. Olhou para cima ao mesmo tempo que alguns grãos de pó e areia caíam sobre si. Estaria o tecto falso prestes a desabar? Não teve tempo de colocar mais hipóteses acerca do que estaria a provocar os ruídos. Mesmo por cima dele, as placas precipitaram-se para o solo e do meio da nuvem de pó subsequente, junto com elas, o corpo franzino de um homem que literalmente aterrou no colo do polícia. Incrédulo, Lizandro fitou o recém aparecido como um parteiro o fará certamente após o nascimento de uma criança. Ali nos seus braços, envolto em fuligem, pó e destroços do tecto falso, estava Miqueias, um errante cidadão do mundo, brasileiro, com a massa muscular suficiente para manter o esqueleto erecto e que após abrir os olhos, vendo-se no “aconchego” dos braços de Hercúleo agente balbuciou um característico “Oi!... como vai!... tudo bem com você?...”

Lizandro, ainda incrédulo pela “aparição”, agarrou no atrevido pelas costas da camisa, lançou-o ao chão e algemou-o ali mesmo.

- Quem és tu, pá. O que fazes aqui? – gritou o surpreendido Lizandro.

- Desculpa “seu” guarda, pensava que não tinha ninguém… - respondeu o Miqueias.

- Vinhas aqui fazer o quê, responde já?!?!...

- Vinha falar com um “policial”, colega seu… – tornou o larápio, não escondendo a mentira esfarrapada.

Poupo-me a pormenores do que se passou a seguir, não porque não os possa contar, mas para salvaguardar a intimidade dos primeiros momentos entre um “pai” e “filho” que devem ser respeitados. Apurou-se que o assaltante pretendia continuar a “limpar” o recheio da Brigada já que tinha sido ele quem no sábado anterior o larápio da impressora e do rádio-cd. O rapazola tinha sido levado ao Departamento, dias antes para ser identificado, por suspeita de furtos e roubos na área do Rossio e tivera o tempo suficiente para congeminar a transferência da propriedade da panóplia de tecnologia ali exposta e fácil de transportar.

Confrontado com uma oportunidade de amenizar as consequências da sua ousadia caso restituísse os artigos que furtara na semana anterior, o Miqueias, lá se comprometeu a devolver os mesmos. Assim, foi preso, presente na segunda-feira seguinte ao Tribunal que lhe instaurou Termo de Identidade e Residência (estranho sempre este procedimento legal quanto aos sem-abrigo, mas deve ser pelo apregoado excesso de prisão preventiva!) e na terça-feira ao final da tarde, lá estava ele, à porta do Departamento, com a impressora recuperada. O rádio, esse “já era”, ou seja, já tinha sido despachado. Conforme o prometido, foram elaborados autos da ocorrência abonando em seu favor tal comportamento tendo-me cabido tal tarefa.

- Estás arrependido ou nem por isso? – perguntei-lhe a certa altura.

- Nunca mais me meto noutra – garantiu o Miqueias.

- Vejo que coxeias e que a tua cara não está muito bem tratada… caíste?

- Não Chefe, não é nada não!...

- Alguém te bateu aqui dentro? Olha, garantiram-me que não… vê lá o que foste dizer lá para o Dr. Juiz. Sei o que se passou e não gosto de acusações sobre factos que não aconteceram. Essas mazelas que tens, foram por causa da queda do tecto?

- Não senhor… foi o pessoal lá do Intendente.

-Então, andaste à “pêra” por causa de alguma ganza ou quê?

- Que nada! Foi o homem que tinha a impressora e seus “capangas”…

- Não me digas! Deixa-me ver; não lhe disseste que era para devolver à polícia ou então nós íamos lá apreender tudo o que ele tivesse na loja?!? Foi isso que te disseram para fazer, não foi?

- Pois, eu fiz igualzinho a isso aí, mas antes de lhe dizer isso, ele me jogou a impressora na cabeça, todo irado!...

- Porquê? Disse algo a alguém que ia passar por lá?

- Não… o cara diz que eu o enganei em 25€. Experimentou o aparelho e estava quebrado… aí, me carregaram de porrada.

- Eh! Pá! Que azar!

- Que nada, senhor, sorte!...

- Sorte?!?! Levas um “arraial” desses e dizes que tens sorte?!?!

O mariola, retirou 20€ do bolso das calças e terminou o raciocínio lógico:

- Sorte sim; se me pedissem o dinheiro de volta, talvez não estivesse aqui para devolver o aparelho…

Bem vistas as coisas, talvez tivesse razão; com tanto azar poderia ter sido bem pior!...


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