terça-feira, março 28

A gargantilha roubada

Muitas horas mediavam já entre captura de Jorge e a inevitável ida para a 3ª Esquadra da PSP do Funchal, imenso, aliás, tendo em conta que entre o crime e a dita, só tinha passado o tempo que levava a dobrar a esquina e dar de caras com o cívico de serviço permanente ao Banco de Portugal. O azarado larápio, após efectuar um roubo por esticão, apoderando-se de uma gargantilha de ouro que reluzia no pescoço de uma turista, encetou uma fuga abruptamente travada pelo choque com agente de serviço à Instituição. Este, logicamente, viu logo que, a julgar pela velocidade, a correria não seria fruto do treino para a S. Silvestre; essa é uma prova de fundo. A seguir, já se imagina. A vítima acusou-o de roubo, ali no local e o Jorge lá foi dar com os costados na Esquadra.

Cumpridas as formalidades da detenção, antes de se iniciar a feitura dos autos respectivos, cumpriu-se o ritual da revista integral ao arguido. Desde a inevitável navalha, bem afiada (dizem sempre que é para cortar a fruta, depois de almoço, porque será!?), ao sacramental charrito e claro a sempre amiga “mixa”, que o Jorginho era multifacetado e não se dedicava só aos puxões, mas da gargantilha, nada. A senhora apresentava ainda as marcas do puxão no seu pescoço, branco ariano que seria imaculado, não fora os vergões encarniçados provocados no momento do ilícito.

- Onde está a “ourina” – perguntou-lhe o Tavares, recém promovido a subchefe e que fora colocado na Madeira em regime de deslocamento.

- E eu sei lá o que é isso; sei lá do que está a falar – ripostou o “gandim”.

- A “ourina”, sabes muito bem o que é. Cá, como lá no Continente, o significado é o mesmo, não te armes em anjinho e toca a falar.

- Não tenho nada comigo. Pode tornar a revistar-me. Já viu que não tenho nada. Não roubei nada, não sei porque estou aqui.

- Há várias testemunhas que te acusam, logo, não venhas para cá com cantigas. Confessa logo o que fizeste à gargantilha que roubaste antes que me salte a tampa, ouviste!? – O Tavares estava a começar a entrar em ebulição, mas o certo é que o tipo não tinha mesmo nada com ele. Teria ele lançado o produto do roubo para algum bueiro ao ver-se caçado pela polícia?

Entretanto, um dos turistas que acompanhavam a vítima, à custa de um alemão misturado com inglês e com muita mímica à mistura, lá desvendou como o meliante se desembaraçara do ouro. Quer dizer, não foi bem desembaraçar, foi mais esconder. O tipo tinha metido a jóia na boca e tinha-a engolido, nem mais! Agora, ali estava o traste, com ar de “engole espadas” e a gozar o pagode.

- Como é? Tens essa mera no bucho, não é?

- Venha cá ver se apalpa alguma coisa. Pode ser que chocalhe…

- Eu é que te chocalho seu cabrãozito… ainda estás a gozar!... – o Tavares estava prestes a entrar em órbita.

Entre uma série de berros e de o informar que iria fazer um raio-x no hospital e que lhe seria aberto o estômago e os intestinos caso o colar não saísse pela cloaca do larápio, eis que entra um oficial superior do comando, trajando civilmente, tido por ser mais duro com os seus subordinados que propriamente com os criminosos, tudo à custa da “boa imagem” e dos direitos dos arguidos que não poderiam ser expostos ao que ele chamava de “humilhações desnecessárias”. A imagem de defensores de todos os direitos, à luz da sua interpretação desses direitos, não admitia que se aumentassem os decibéis das questões feitas perante evidentes criminosos.

- Pronto, já vai haver merda, disse alguém entre dentes.

- Eh, Pá! Pois é, está tudo estragado.

- Então que se passa aqui? – a frase fora dura, mas curta e logo não deu sequer para se denotar a gaguez do oficial. Sim, porque o senhor, patinava a fala, em especial em situações que impunham mais celeridade no diálogo ou quando o clima era mais tenso.

- Meu Comandante, boa noite. Está ali aquele “melro” que roubou uns turistas que estão ali dentro. “Esticou” uma gargantilha em ouro que não aparece e ele nega-se a dizer onde está. Suspeitamos que a tenha engolido.

- E é assim que...que...que se resolvem as coisas? Queeem quer que pa...a..a..asse lá fora, pen...en...ensa que estã...ã...ão aqui a to...o...orturar al...al..guém! Quem oiça a grita...a...aria, que pensará? E estes se...e...enhores? Lá no país de...e...eles não estã...ão habituados a estas co...oisas. Acham que vão fa...a...alar bem dos métodos da po...o...olícia portuguesa pe...pe...perante esta vergonha? Que imagem quer o Sr. Su...su...subchefe que eles levem da Madeira? – escandalizado, o oficial lá continuou o seu discurso, longo e censurador, uma autêntica ode à boa prática de interrogatórios policiais, rematado com um mini tratado de abordagem a um ladrão. O Jorginho estava alheado com a chegada deste salvador. Com um bocado de sorte, o “Garganta Funda” ainda ia seguir o seu caminho em paz e mais tarde lá aliviaria o produto do roubo, algures no meio de um campo de bananeiras, mas se aquela “treta” ficasse dentro do bucho ou da tripa fétida, a coisa poderia ficar feia. O seu semblante era visivelmente de preocupação perante a possibilidade de ter de expor as suas entranhas à curiosidade alheia. Ninguém lhe garantia até que, caso tal sucedesse, que um dos assistentes do “evento” tivesse já sido vítima de uma das suas “diabruras”. O tipo estava preocupado e sob esse ponto de vista, tinha razão e quase dava dó, só de pensar. O “anjo salvador” aproximou-se então junto dele preparando-se para demonstrar como se lidava com este tipo de situações. Parou mesmo diante do malandro, que permanecia sentado, entrelaçando os dedos, visivelmente nervoso e alheado do episódio anterior. Jorginho permanecia de cabeça baixa.

- Entã...ã...ão rapaz, vamos lá con...on...onversar então – o benévolo oficial, mandou afastar os dois guardas que ladeavam o detido e colocou-lhe uma mão sobre o ombro – vá lá filho, conta lá o que se passou. Estes senhores gua...a..ardas não te ba...ba...bateram, pois não?...

O discurso estava fora da esfera de compreensão dos turistas que apreciavam a cena, sem entender bem o que se passava pela barreira linguística que nos poupava à vergonha e pela gagez acentuada, porque para os restantes, tirando uma ou outra palavra, já não era novidade. Apre, aquela era a versão mais lírica do “polícia bom” e do “polícia mau” que alguma vez eu apreciara. É que ela só é aplicada quando não se tem muita informação ou certezas acerca dos suspeitos, mas este, mais que suspeito era um arguido prestes a pedir que lhe fizessem uma lavagem ao estômago antes que empancasse a tripa. De repente, o mitra, apercebendo-se que a “guarda de honra” estava desguarnecida, endireitou o tronco e deparou-se com uma cara, bem à sua mercê e a pedir um afago nas faces. Aplicou um valente soco na cara do seu interlocutor que caiu para o lado desamparado enquanto os seus óculos descreviam uma parábola, desfazendo-se nas pedras da calçada da parada. Claro que o atrevido, foi logo dominado e evitou-se a sua fuga pela porta do Comando e após ser algemado, foi novamente sentado, sem que fosse molestado, após a agressão ao “maior” da casa, cumpriu-se a sua vontade de manter os direitos do arguido. Ferido, o oficial, escondendo o local da cara atingido por tamanha “pêra”, apontou para o ladrão e visivelmente afrontado lá disse a custo - Fo…ooo…oddda…asss.... pre.. pren… preen…prendam esse gajo - e foi-se embora, entre os risos abafados de todos os presentes (sem excepção, acho eu).

domingo, março 19

OS TRAPEZISTAS DE LIVERPOOL

Ainda ando a remoer a coragem de dois adeptos ingleses que vi entoando cânticos de exaltação ao seu Liverpool F.C. Nada de admirar, não fosse a particularidade de naquela noite estar um vento gelado, daquele que até bloqueia o cérebro e os tipos estarem vestidos com os calções e camisolas do clube e com umas bandeiras de pano fino. À falta de peixe frito com batatas fritas, os “beefs” lá aderiram à bela bifana e ao consagrado coirato e ali estavam eles, junto da rulote das respectivas, com uma litrada de cerveja com que alimentavam as entranhas e adormeciam a clarividência. No meio da populaça que espreitava, enregelada, para o televisor onde se via o jogo que decorria ali ao lado, no Estádio da Luz, estes teriam passado desapercebidos, já que trajando da mesma cor dos locais, loucos daqueles, em trajes quase menores, temos cá qb, agora passar o jogo todo, entre adeptos adversários, vangloriando os feitos do seu clube (não se calaram, mesmo quando o Benfica, quase no final da partida, desferiu o golpe de misericórdia nos visitantes). Talvez a velha aliança Luso-britânica tenha contribuído para os dois “supporters” serem tolerados entre a mole de lampiões que além do frio a que resistiam, viam os efeitos deste serem aumentados pela visão dos dois britânicos, ali em pêlo, sem que nada os fizesse vacilar. Há dias de sorte, digo eu. Mas, mesmo perdendo, lá foram eles confraternizar com todo o “fair-play” com outros adeptos, portugueses e ingleses.

O amor clubista presta-se a estas coisas e a natureza humana é propícia a vencer desafios, a alcançar metas, a atingir fins, competir e testar limites, sejam eles de grande importância e significado ou então coisas mais fúteis, como um mero jogo de “tetris” desses que temos nos telemóveis. Eu ando para bater o recorde da minha filha, há semanas e sinto-me muito próximo de o conseguir; sendo uma banalidade, serve de exemplo para demonstrar esse tal carácter de competitividade.

Findo o Benfica Liverpool, não demorou muito a que se esvaziasse a área envolvente na zona do Estádio da Luz. O tempo estava bom para comemorar noutros locais que não a rua. Vendo que as coisas estavam calmas no Metro, o comandante do policiamento mandou levantar a operação montada para a vigilância e acompanhamento no mesmo e tratei de recolher a minha rapaziada. O ponto de reunião era junto a uma das rulotes em frente ao Colombo, agora em tempo de levantar arraiais mas onde ainda se despachavam as últimas buchas e “bujecas”. Éramos sete e após saciarmos os estômagos com a famosa “fast-food” à portuguesa (deixem que os tipos da Mc.Donald’s se apoderem da ideia e ainda verão um dia uma versão yankee do belo coirato franshisada pelo globo), café bebido para assentar as gorduraças e toca a entrar para a carruagem do metropolitano, rumo aos Restauradores. A carruagem ia composta. Poucos eram os que vinham do Estádio. A grande maioria era os habituais utentes daquela hora, funcionários do centro comercial ou clientes que regressavam a casa, nada de gente eufórica, vinda do Estádio, daqueles que destabilizam sempre o ambiente, quer tenham ganho ou perdido. Connosco entraram cinco ingleses, todos na casa dos 35/40 anos que destoavam no meio dos passageiros não pelo seu aspecto de “bárbaros do norte”, mas sim porque entoavam cânticos, bem desafinados diga-se, glorificando o seu clube. Raios, os tipos tinham perdido mas mesmo assim, faziam um chinfrim do caraças. Bem, enquanto fosse só barulho, bastava ir de olho nos seus movimentos e no resto dos descendentes de Viriato que com ar tolerante lhes iam aturando as lengalengas. Somos mesmo um povo tolerante e hospitaleiro, pensei, enquanto os observava. Uma troca de olhares entre nós foi o suficiente para que se mantivessem todos alerta, não fosse algum lusitano mais nacionalista, armar-se em papoila saltitante, transformar-se em heroi e começar a desancar na bifalhada.

A certa altura da viagem, por entre cânticos que alternavam entre as glórias clubistas e explícitos achincalhamentos à Lusa Pátria e seus nacionais, dois dos britânicos dispuseram-se a efectuar algumas habilidades de tipo circense pendurando-se nas pegas de apoio do tecto, fazendo demonstrações de força braçal e baloiçando-se à laia de trapezistas de feira. Os “Mens” começavam a entrar na provocação mais que explícita; começavam a provocar um certo mal-estar e rapidamente se abriu um espaço em seu redor. Quem estava por perto decidiu sair dali para evitar problemas. Os destemidos ingleses, vendo os efeitos da sua acção, continuaram na sua conduta, cada vez mais espalhafatosa e aproveitaram para afastar mais alguns passageiros. A receita era óptima. Por aquele andar, à escala da carruagem, dentro de minutos teríamos um enclave britânico tipo Gibraltar, ali mesmo, dentro do comboio. A populaça já não estava a gostar muito da brincadeira e as coisas não estavam piores porque a língua dos Ilhéus era desconhecida para a maioria, além de estar misturada com valentes cargas etílicas que dificultavam a compreensão para quem percebia o inglês.

Eu observava esta cena muito próximo da fronteira do espaço conquistado pelos irrequietos senhores, tentando manter a calma enquanto jogava uma partida de “tetris” no meu telemóvel. Estava confiante que em breve os tipos se cansariam ou então sairiam no Marquês de Pombal e aí seguiríamos o grupo, para “espiar” os seus passos, não fossem fazer das deles. Ali dentro, era mais complicado intervir sem que houvesse danos colaterais e era melhor evitar confrontos entre a populaça, tanto mais que, à civil, é mais complicado actuar nestas situações. Eis quando, estando eu nestas cogitações, um dos “artistas” balança-se com mais força, bate com os pés no tecto da carruagem e no movimento descendente quase me atinge com as botifarras que trazia calçadas. Decidi que tinha de acabar com aquilo. Já estava a passar das marcas e a tolerância termina quando se entra nos limites do achincalhamento e da provocação. Dirigi-me ao “trapezista”, exibi-lhe a carteira policial e dirigi-me a ele num inglês de escola:

- Police. Enough. We will put an end to this, already.

O tipo, manteve-se pendurado nos apoios do tecto, olhou-me com desprezo total, “arreganhou” a dentuça e deve ter pensado lá para ele, o que seria que aquele peso- pluma ali em frente queria fazer com ele.

- Stop now – tornei.

- Fuck of… – o animal, além de mal-educado, era atrevido e logo encolheu as pernas para me pontapear.

Felizmente a minha reacção foi mais expedita, já que o tipo, além de já estar cansado, tinha os movimentos adormecidos pelos litros de cerveja que guardava no estômago. Segurei-lhe um dos braços e precipitei-me sobre ele, caindo ambos no chão da carruagem. Na tentativa de amparar a queda, a minha mão, em vez de assentar no chão, assentou-lhe na cara e logo por azar, era aquela em que tinha a carteira profissional, ficando-lhe marcado o distintivo da corporação na testa à laia de troféu de batalha. Os que o acompanhavam, ao ver a cena, acorreram em seu auxílio e não vinham certamente com vontade de me convidar para uma cerveja no Cais do Sodré. Mas rapidamente se viram dominados, um por um pelo resto dos polícias que iam discretamente embrulhados com os passageiros. Olhei em redor. O espaço “conquistado” pelos ingleses, além de retomado, tinha agora ficado mais deserto de utentes que antes da sua investida. O tipo, apesar dos apelos dos seus consórcios, que entretanto tomaram consciência da realidade, ainda continuava a tentar atingir-me, apesar de dominado por dois dos meus rapazes. Entre encontrões e bofetadas (nestas ocasiões há sempre quem aproveite para dar umas palmadas), uma velhota, a única que resistira sentada ali junto dos atrevidos ingleses, aproveitava para distribuir umas “frutas” e “carolos” no indivíduo, misturadas com uns certeiros e rápidos golpes da sua mala de mão; no meio da breve contenda, terá sido ela quem mais “molhou a sopa”.

Acalmadas as coisas, encetado diálogo entre o mais “sensato” dos do grupo, após uns incontáveis “apologizes” das quais só acredito na sua sinceridade pelo medo de ir em cana, não pelo respeito pela autoridade, lá saíram eles, nos restauradores e mandados para o exterior do Metro, para apanharem um pouco de ar fresco e reflectir. O mais atrevido deles, à saída da carruagem ainda continuou a insistir que queria “conversar” comigo, “man to man”, lá fora na “street” e não parava de dizer que um dia ainda me iria lembrar dele. A velhota que atrás referi, ainda o atiçou mais. À nossa saída gritou toda esganiçada um vitorioso e estridente – Viva o Benfica!...

Ah! Já me esquecia; não é que o sacana do inglês me fez perder o jogo quando faltavam menos de 100 pontos para bater o recorde da garota!...


sexta-feira, março 10

ALTERAÇÃO AO CÓDIGO DO TRABALHO



1. INDUMENTÁRIA:

O Informamos que o funcionário deverá trabalhar vestido de acordo com o seu Salário.

Se o virmos calçado com uns ténis Adidas de 100EUR ou com uma bolsa Gucci de 150EUR, presumiremos que está muito bem de finanças e portanto, não precisa de aumento.

Se ele se vestir de forma pobre, será um sinal de que precisa aprender a controlar melhor o seu dinheiro para que possa comprar roupas melhores e portanto, não precisa de aumento.

E se ele se vestir no meio-termo, estará perfeito e portanto, não precisa de aumento.

2.AUSÊNCIA DEVIDO A DOENÇA:

Não vamos mais aceitar uma declaração do médico como prova de doença.

Se o funcionário tem condições para ir até ao consultório médico também tem para vir trabalhar.

3. CIRURGIA:

As cirurgias são proibidas.

Enquanto o funcionário trabalhar nesta empresa, precisará de todos os seus órgãos, portanto, não deve pensar em tirar nada. Nós contratámo-lo inteiro.

Remover algo constitui quebra de contrato.

4. AUSÊNCIAS DEVIDO A MOTIVOS PESSOAIS:

Cada funcionário receberá 104 dias para assuntos pessoais, em cada ano. Chamam-se Sábados e Domingos.

5. FÉRIAS:

Todos os funcionários têm direito a gozar ainda mais 12 dias de férias nos seguintes dias de cada ano:

1 de Janeiro,

Dia de Páscoa

25 de Abril,

1 de Maio,

10 de Junho,

15 de Agosto,

5 de Outubro,

1 de Novembro,

1 de Dezembro.

8 de Dezembro.

25 de Dezembro.

6. AUSÊNCIA DEVIDO AO FALECIMENTO DE ENTE QUERIDO:

Esta não é uma justificação para perder um dia de trabalho.

Não há nada que se possa fazer pelos amigos, parentes ou colegas de trabalho falecidos.

Todo o esforço deverá ser empenhado para que os não-funcionários cuidem dos detalhes. Nos casos raros, onde o envolvimento do funcionário é necessário, o enterro deverá ser marcado para o final da tarde.

Teremos prazer em permitir que o funcionário trabalhe durante o horário do almoço e, daí sair uma hora mais cedo, desde que o seu trabalho esteja em dia.

7. AUSÊNCIA DEVIDO À SUA PRÓPRIA MORTE:

Isto será aceite como desculpa. Entretanto, exigimos pelomenos15 dias de aviso prévio, visto que cabe ao funcionário treinar o seu substituto.

8. O USO DO WC:

Os funcionários estão a passar tempo demais na casa de banho.

No futuro, seguiremos o sistema de ordem alfabética. Por exemplo,

Todos os funcionários cujos nomes começam com a letra 'A' irão entre as9:00 e 9:20, aqueles com a letra 'B' entre 9:20 e 9:40, etc. Se não puder ir na hora designada, será preciso esperar a sua vez, no dia seguinte.

Em caso de emergência, os funcionários poderão trocar o seu horário com um colega. Ambos os chefes dos funcionários deverão aprovar essa troca, por escrito.

Adicionalmente, agora há um limite estritamente máximo de 3minutos na sanita. Acabando esses 3 minutos, um alarme tocará, o rolo de papel higiénico será recolhido, a porta da sanita abrir-se-á e uma foto será tirada. Se for repetente, a foto será afixada no quadro de avisos e Intranet do Serviço com o título infractor Crónico.

9. A HORA DO ALMOÇO:

Os magros têm 30 minutos para o almoço, porque precisam comer mais para parecerem saudáveis.

As pessoas de tamanho normal têm 15 minutos para comer uma refeição balanceada que sustente o seu corpo mediano.

Os gordos têm 5 minutos, porque é tudo que precisam para tomar uma salada e um moderador de apetite.

Muito obrigado pela sua fidelidade à nossa empresa. Estamos aqui para proporcionar uma experiência laboral positiva. Portanto, todas as dúvidas, comentários, preocupações, reclamações, frustrações, irritações, desagravos, insinuações, alegações, acusações, observações, consternações e quaisquer outras... ões' deverão ser dirigidas para outro lugar.

Tenham uma boa semana.

A Administração.

A Não perder...



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sexta-feira, fevereiro 24

O COISAS VAI PARA O NORTE...


...mas volto em breve. Até lá, Bom Carnaval.

quinta-feira, fevereiro 16

COISA do ABRUPTO

Freitas colocou-se em "posição de cócoras" ao fazer uma declaração infeliz, porque incompleta, porque parcial. O embaixador do Irão em Lisboa, Mohammed Taheri, gostou da posição e ... elogiou-a. Já que ele estava naquela posição, o embaixador aproveitou para abusar... comentado as suas contas pelas quais o holocausto deveria estar longe da verdade. Aí sim, Freitas sentiu que a posição de cócoras, além de muito criticada pelos seus pares, deu azo a um "avanço" do Mohammed. Freitas levantou-se e foi ligeiro reclamar junto do embaixador a "vilaneza". O embaixador nem desculpas deverá pedir, enquanto Freitas não organizar os tais campeonatos de futebol euro-árabes, onde os resultados deverão ser previamente combinados para evitar melindres. Afinal as declarações de Freitas do Amaral eram muito piores do que pensava ! [no Abrupto]

COISAS (também na Palestina)

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Recebida por mail...

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Acerca da tolerância...

Será retaliação à decisão do Vaticano que pretende vedar a entrada no Santuário de Fátima aos seguidores de outros credos religiosos? Veremos em breve uma imagem similar na A1?
Aguardamos para ver. Para já, aqui fica o testemunho retirado do site a que refere este link.


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quarta-feira, fevereiro 15

Vale a pena espreitar; uma delícia.

in: T.4you

"As mulheres gostam que lhes digam palavras de amor. O ponto G está nos ouvidos. Inútil procurá-lo em outro lugar". (Isabel Allende)

I see dark clouds out my window
I know the storm is coming any minute
And the thunder just confirms my fears
And I know the tears are in there
I'll be crying unable to stop
Look here comes the very first drop
'Cause every time it rains
I fall to pieces
So many memories the rain releases
I feel you... I taste you
I cannot forget
Every time it rains... I get wet" (Ace of Base).























Olha, Isabel, tu és uma gaja porreira, notável não só pela tua ascendência, mas também (e sobretudo) pelos livros que escreves, mas, desculpa, quanto à tua vida sexual, estamos conversadas.
Na volta, pensas que o "I get wet" dos Ace of Base é só por causa da chuva...
Aprende, Isabel, aprende:

"Consigo masturbar-me até ao orgasmo num minuto.

Com o meu marido leva pelo menos 15 minutos de manipulação experiente.

Não sei porquê, mas sempre foi assim comigo."









Maria dos Anjos, 61 anos, reformada

Mas, para tua melhor compreensão, eu repito e repetirei:

Como dar a queca perfeita... (ver o artigo completo aqui)

terça-feira, fevereiro 14

segunda-feira, fevereiro 13

O estofo do Nacional


A U. Leiria deu um bailinho da Madeira ao Nacional, ganhando por 4-1. Habituado a situações difíceis, Jorge Jesus assumiu a equipa no 16º lugar da Liga com apenas 2 pontos em 5 jogos e agora, 17 jornadas depois, já é 8º com 31 (depois de nas últimas duas jornadas ter jogado com Benfica e Nacional).

A goleada imposta pela equipa leiriense vem confirmar a quebra do Nacional, que nada ganhou com a guerra que Rui Alves abriu com o Sporting.

O que ficou hoje provado é que a formação madeirense - terceira derrota consecutiva (Sporting/Liga, Benfica (Taça de Portugal) e U. Leiria (Liga) - não é definitivamente do campeonato leonino.

Entre o Sporting, que venceu em Setúbal por 2-1 apagando a má imagem deixada na Taça com o Paredes, e o Nacional estão agora 4 pontos de diferença. Os leões confirmaram que têm estofo para lutar pelo título enquanto a equipa de Manuel Machado começa a precisar de provar que a luta pelos primeiros lugares da tabela classificativa não foi uma situação conjuntural. A seu tempo se verá..


Autor: SANDRA LUCAS SIMÕES in OPINIÃO-Apanhados na Rede-Jornal Record
Domingo, 12 Fevereiro de 2006

quinta-feira, fevereiro 9

O Perú (inchado) Rui Alves

Depois dos frangos do Ricardo, a sala de troféus do SCP acaba de receber a oferta de um exemplar de perú Inchadus Rui Alvius papagaios, espécime autóctone da Região Autónoma da Madeira, caracterizada pelas suas vocalizações ao bom estilo dos papagaios. O belo exemplar foi caçado pelo defesa Caneira e oferecido pelo avançado leonino, Ricardo Sá Pinto, ao clube.

Fontes bem informadas e próximas do coisas, asseguram que Caneira e Sá Pinto poderão vir a ter sérios problemas por caçar fora da época de caça, estando descartada a hipótese de processo movido pelas Organizações de Protecção dos Animais, já que o animal em questão não se encontra em vias de extinção. Os responsáveis pelo Couto de Alvalade sairam em sua defesa e já vieram a terreno afirmar que o bicho foi abatido no interior da sua área privada.

Polémicas à parte, aqui fica, em primeira mão, uma imagem do exemplar.

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Sá Pinto II (O Caçador de perús)



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Sá Pinto I



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Vai-te catar, Bill

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Em Portugal - «O miúdo que perguntou a Bill Gates como se fica rico». Fábio tem 13 anos, é futebolista do Alcochetense e o milionário mandou-o fazer aquilo que gosta...



Que raio... eu faço aquilo que gosto e não há meio de enriquecer...

terça-feira, fevereiro 7

sábado, fevereiro 4

Cenas tristes (O Irmão do Conde)

Lisboa – Benfica, fim de tarde do Inverno de 1989, Av. Tenente-coronel Ribeiro dos Reis.

- O trânsito não facilita nada… mais rápido ou perdemos o tipo.
- Calma que não vale a pena bater, senão é pior a emenda que o soneto.
- Raio, estes tipos não se mexem. Viste a matrícula? Nada só vi que era um Uno.
- Só faz azelhices o tipo, lá vai ele... palhaço!
- Esquece isso e não percas o tipo do Mercedes. Esse é que interessa.
- Vai ali, vai ali… entrou na Reinaldo dos Santos. Se entra na Segunda Circular, podemos dizer-lhe adeus, nem a matrícula lhe tiramos.
- Vou ligar as rotativas, atenção ao cruzamento, está vermelho.
- Dá-lhe uma “gaitada” que eles andam cegos… sai da frente pá, não vês os “pirilampos”?!
- Passámos, dá-lhe gás que ainda o estou a ver, vai mesmo para lá.
- Esta treta não anda mais… primeiro que desenvolva!
- Entra, entra, que o estou a ver. Entra e encosta tudo à esquerda. Se vai para a A-1, nada feito.

O velho e pesado Opel 2004 arrastava-se ao longo da Av. General Norton de Matos em perseguição do Mercedes 200 que tinha de ser interceptado antes de sair da área de acção do carro-patrulha (CP). Atrás de nós uma nuvem poluente despejada pelo escape, composta pelo menos de 50% de diesel mal carburado, 40 de óleo e a percentagem restante de difícil diagnóstico, formava uma cortina preta, certamente tão visível a partir do espaço quanto a Grande Muralha, retirando a visibilidade de quem nos precedia. Não fora a fumarada causada pelo combustível fóssil e qualquer um diria que era um veículo da Era dos Flinstones (a começar nos buracos no chão do mesmo e passando por outros que me escuso a comentar, este em tudo se assemelhava). O condutor do Mercedes aumentava a velocidade e a custo o charuto rodava, melhor arrastava-se na sua peugada, com a sirene ligada. Esta, além de ser abafada pelo ronco do motor Perkins, tinha um dos tons avariados. Desta forma, em vez de fazer o clássico Tii-Nóo-Nii, só debitava uns tímidos e afeminados agudos, “Tii” e “Nii” já que, o grave “Nóo” há muito que deixara de berrar. Como se não bastasse, aqueles apitos amaricados eram abafados pelos indescritíveis ruídos que saíam da lata da nívea. Realmente, ainda hoje questiono qual a força oculta que punha aquele cancro em movimento e qual a divindade que o ressuscitava sempre que lhe era encomendada a alma ao criador.

Apesar de ter sido uma autêntica corrida Lebre versus Tartaruga (sem quaisquer desprimor para os pachorrentos anfíbios), depois de guinar por entre os atónitos utentes da via, que ficavam basbaques a mirar o serpenteado preto que íamos deixando pela via, aproveitando uma fila de trânsito, aliás uma das crónicas filas da Av. General Norton de Matos, lá pusemos a lata a par do reluzente e garboso 200 fazendo sinal ao condutor para sair na próxima saída à direita e deter o carro. Isto claro, acompanhado de efusivos gestos com os braços, feitos pelo chefe da viatura e pelo tripulante, atrás deste. Tinha de ser assim pois os vidros do lado direito há muito que não abriam. Imobilizadas as viaturas, o condutor, visivelmente agastado com a algazarra e aparato, fuzilou-nos, melhor, metralhou-nos com o olhar e pela cara que fazia, dizia algo para a senhora que seguia ao seu lado que deduzo seriam palavras nada abonatórias para as nossas pessoas.

- Boa tarde Sr. Condutor.
- Boa tarde?! Vou aqui cheio de pressa e vem para aí com Boa Tarde? Fiz alguma asneira? Se fiz, deixe-se de sermões; disso e de vocês estou eu farto. Faça o favor de se despachar a passar a multa.

O indelicado homem (confesso que perante esta atitude, estou a ser benevolente), tinha uma visível aversão a polícias, resultado de alguma má experiência anterior com a autoridade o que acrescia de uma soberba directamente proporcional a um pavão em plena corte e má educação q.b. Por várias vezes o “afectado” se intitulou irmão de um Duque, famoso da nossa praça e familiar directo do titular ao trono da Nação, coisa que pouco nos tocava a nós, simples assalariados da República, apontando para o brasão da Monarquia Portuguesa aposto na traseira do automóvel. O arvorado do CP, impávido e sereno, talvez anestesiado pelos gases de escape da viatura, habituado a coisas bem piores, fitou o homem com a maior das calmas do mundo enquanto este desfiava um rosário de queixas, lamúrias e um sem fim de barbaridades. Vendo que os polícias nada faziam nem se lhe respondiam, ao fim de uns bons minutos, lá fechou a torneira das prosápias e parou a verborreia descabida. Nesse momento, até o ruído estrondoso do avião que nos sobrevoava em direcção à Portela parecia o suave canto de um canário.

- Já terminou? – questionou o Alves.
- Qual é o problema? Multa-me, diz o que fiz de mal ou vai ficar aí especado o resto do dia? Veja lá se decide que já estou atrasado que baste! Não basta furar a merda da roda, agora ainda tenho de levar com vocês. Não tem mais nada que fazer? É por ter um Mercedes, é? Diga lá qual é a multa e despachamos já isto. Cambada de incompetentes, vêm da parvónia armados em autoridade… nem falar sabem. Está bonito este país!...
- Bem, já que insiste, vou então autuá-lo… por não possuir o triângulo de pré-sinalização de perigo no veículo.
- É mesmo isso? Ora vejam lá – o irritante sujeito dirigiu-se à mala do carro, abriu-a e começou a remexer o interior – está aqui, vai ver. Não queria mais nada, não? Está aqui, meteu os pés pelas mãos…

Ao fim de muito rebuscar e remexer, o homem, lívido, com os olhos esbugalhados e as narinas dilatadas, tal era a dificuldade que tinha em expressar o que lhe ia pela alma, contornou o carro e dirigiu-se à mulher que inicialmente o acompanhara e incentivara a invectivar-nos, mas estava agora mais calada que um rato.

- O triângulo? Onde meteste a merda do triângulo?
- Na estrada, atrás do carro, onde mudaste a roda – a mulher enfrentou-o com semblante ofendido.
- E porque não o puseste outra vez dentro do carro?!?!... gritou o colérico infractor.
- Porque me mandaste entrar dentro do carro e disseste para não fazer mais nada.
- Agora vou ser multado porque não tenho a porra do triângulo. Além disso tenho de encontrar um sítio onde possa comprar outro. Só me arranjam destas.

Dirigiu-se ao Guarda Alves, de documentos em punho e este, em poucos instantes identificou o furibundo homem que não se calava.

- Não pode ser só pelo triângulo, eu sei. Mas não vou pagar, não vou, não. Eu tinha o triângulo e esqueci-me dele lá atrás – enquanto dizia isto, o Alves devolvia-lhe os documentos.
- Não vá lá; não vale a pena, é tempo perdido.
- Tem medo que eu conteste a multa, não é? E que leve testemunhas a tribunal a dizer que tinha o triângulo, lá onde mudei a roda, não é?
- Podem testemunhar, não me oponho, mas também testemunharão a nosso favor.
- Pois, “amiguinhos” pois, pois!!... Sei como isso funciona.
- Não, nada disso. Se tivesse calma há muito que já teria passado Vila Franca. O que se passou foi que essas pessoas viram-no arrancar com o carro e esquecer-se do triângulo na estrada. Depois, viram-nos passar, alertaram para o facto, indicaram o seu carro ainda ao fundo da rua e nós só viemos no seu encalço para entregá-lo ao dono. Foi por esta simples razão que o mandámos encostar – presenteou-o com uma irrepreensível continência, desejou-lhes um resto de bom-dia, entrou no carro patrulha e rematou antes de bater a porta do CP – Ah! Olhe que tem quinze dias para pagar a multa ou então deixe seguir para tribunal. Não se esqueça de fazer pisca quando arrancar, que não o fez quando foi mandado parar. Passa desta vez. Boa viagem.

O Nobre irmão do Conde, ficou ali, de pose perdida, braços caídos, a ver o CP partir. Numa mão a multa e na outra o triângulo que lhe deu origem.

quinta-feira, fevereiro 2

O SERGINHO (Parte I)



É sempre uma sensação boa quando no nosso mister conseguimos atingir os patamares e objectivos a que nos propusemos. O moral é elevado e as coisas parecem rolar sobre carris, esquecem-se pormenores que em situações mais adversas são motivo para deitar abaixo mesmo o mais dedicado dos trabalhadores e ao final de cada dia sentimos que, mesmo que incompreendido, o dever cumprido é sentimento que culmina esse mesmo dia. Naquela manhã, eu era a imagem do polícia realizado, acabado de entrar na Secção de Justiça (SJ) do Comando de Lisboa, uma das prestigiadas subunidades da Polícia da capital e que fazia parte dos sonhos de futuro de uma maioria substancial dos agentes da Corporação. Para além do facto de nas brigadas se actuar à civil e poder-se assim realizar um trabalho continuado e sistemático sobre casos mais complicados de delinquência e crime, ali sentíamo-nos de certa forma na pele dos mais destemidos e perspicazes detectives de série de TV. Era por assim dizer, salvaguardadas as devidas distâncias e realidades, um “Hill Street” à portuguesa. Ao contrário de hoje, a lei de então deixava muito pouco campo de manobra para a investigação criminal no seio das forças de segurança pública, trabalhando estas com base na prevenção, no imediatismo das ocorrências, flagrante delito e pouco mais. Obviamente, as vantagens que tinham (e continuam a ter) os agentes trajando civilmente eram a actuação revestida do factor surpresa escudado na falta da farda a qual tem efeito dissuasor para as actividades ilícitas nada desejável naquele tipo de serviço e a movimentação mais discreta entre a população.

Inicialmente fui convidado para integrar as equipas da SJ como motorista das brigadas o que me dava a possibilidade de rodar pelas muitas equipas que compunham o Departamento e dessa forma rodar por todo o Distrito de Lisboa e apurar os métodos, técnicas e procedimentos policiais que habitualmente não se aplicavam nas tradicionais Esquadras e serviço de patrulha. Depressa fui confrontado (e de que maneira!) com a realidade das mais diversas actividades delituosas mas uma delas, a que alguns apelidam de “arte”, caracterizada pela destreza e método sub-reptício que os “artistas” usam na sua consecução, que é tão simplesmente o furto subtil, praticado por esse esfaimado espécime urbano que ataca bolsos, malas e afins, à laia de parasita protozoário que “alivia” a sua vítima dos haveres pessoais e que todos conhecemos por carteirista (carteiros, na gíria policial), sempre me chamou a atenção.

Ao fim de duas semanas na SJ, já todas as rotinas da viagem casa – trabalho e vice-versa estavam gravadas na minha mente assim como já estavam memorizadas as imagens, nomes e áreas de acção de umas boas dezenas de “carteiros” em actividade na cidade. Entrei no metro na Estação do Colégio Militar e fui-me encafuando por entre a turba de gente que àquela hora se dirigia para a Baixa da cidade. Estava fresco lá fora mas a carruagem fazia lembrar uma imensa sauna, pejada dos mais variados aromas que iam do corrente after-shave barato ao subtil Cardim, passando claro pelos tradicionais e sortidos cheirinhos a sovaco e sulfato peúga sem esquecer o resultado dos alívios irritantes das flatulências de alguns mais descuidados. Bem vistas as coisas sempre era o meio mais rápido de chegar à Baixa e a pituitária lá tinha que sofrer estes apertos em solidariedade com outros igualmente dolorosos de pés, apalpões, esfregadelas, enfim, tudo aquilo que faz parte de uma viagem de metro em hora de ponta. Em cada paragem numa estação era aplicado o velho princípio, típico de todos os metropolitanos, do “cabe sempre mais um” e ao cabo de duas ou três estações já me encontrava literalmente espalmado contra o vidro da porta oposta à entrada, rezando a todos os santos para que o maquinista não tivesse a infeliz ideia de abrir as portas do lado errado. Chego a equacionar a hipótese (meramente académica, eh!eh!) que hoje, com a idade que tenho, posso vangloriar-me da minha falta de barriga, graças ao facto de durante todos estes anos andar metido dentro daquele espartilho colectivo. Na posição incómoda em que se viaja nestas condições, os breves minutos passados dentro daquele cúbico subterrâneo, levam-nos a fazer as coisas mais diversas. Há quem durma, aproveitando o facto de ir enfaixado entre os seus pares e assim repor alguns minutos de descanso perdidos pela necessidade de madrugar, outros dedicam-se à leitura dos diagramas da rede de transportes, miúdos e graúdos deleitam-se com os prazeres de escarafunchar as fossas nasais, fala-se de bola, da vida, apreciam-se os glúteos generosos das meninas dos painéis de publicidade e transferem-se as reacções que elas provocam em reflexos transmitidos às mãos que percorrem, encobertas pelo gentio, os rabiosques das “vizinhas” (quantas vezes “vizinhos”), que ora protestam e assentam umas “latadas” naquele que nem gosta dessas confianças, ou então “manobram” de forma a facilitar o devaneio alheio. Misturado com os sons metálicos da máquina em andamento, um lamento daqui, um ai dali, todos compenetrados lá seguem até ao seu destino onde se precipitam na gare como se de uma lancha de desembarque nas praias da Normandia em 1944 se tratasse.
A dada altura da viagem, alguém se encosta a mim para se desviar da incontornável figura do invisual que a custo tenta evoluir por entre aquela massa compacta de gente. A mole humana, num misto de desagrado e compaixão lá vai dando passagem ao pobre pedinte enquanto o fulano contínua a apertar-me contra o vidro e não alivia a pressão depois de passar o cego. Com a paciência que se exige nestes momentos, tirando partido da minha esguia figura, arranjo forma de me encaixar, ainda mais, de forma a não oferecer o cós das calças (e o seu conteúdo, claro) à possível investida de algum “rebarbado”. Já quase me falta o ar e não há mais nada em que pensar; a viagem nunca mais termina. Mergulho o meu olhar no reflexo do vidro da porta onde vou alapado e observo, de um ponto de vista diferente a floresta de pernas e corpos atrás de mim…


(continua)

SERGINHO ( Parte II )

Usava uma gabardina verde-tropa, dessas com bolsos falsos, para aceder mais facilmente aos bolsos do casaco. Através do reflexo do vidro, além do emaranhado de pernas atrás de mim podia ver o ferro que transportava pendendo na sovaqueira. Tentava recordar-me de algo que sabia importante, mas não conseguia saber o que era. Era importante, mas não conseguia trazer à ideia o que me provocava a sensação de ter esquecido de algo, ou de ter algo para fazer nesse dia. Que raio, a carteira também não era, enfim, sono tem destas coisas. O que fosse lembrar-me-ia quando fizesse falta. Envolto nestas cogitações, eis que vislumbro algo que me retirou deste estado de pré-hipnose. Pelo mesmo reflexo do vidro, vejo uma mão marota, com dois dedos em riste, à laia de tenaz a esgueirar-se tal e qual uma serpente para o interior do bolso direito do casaco. Rapidamente contei - uma mão mais outra mão, são duas mãos - as minhas claro as que me amparavam contra o vidro. Ora, salvo alguma transformação tipo divindade da Indochina, aquela terceira mão não era minha, logo estava fora do contexto; quer dizer, no contexto estava, mas não no certo. Arqueei um pouco mais o tronco para facilitar a vida ao insinuante membro enquanto que calmamente, com a mão esquerda peguei no par de algemas novas que tinha à cintura e aguardei que a presa desferisse o ataque final. Não foi preciso esperar muito já que para azar do intruso a única coisa dentro do bolso era um lenço, por sinal limpinho (sorte a dele) e que não lhe devia fazer falta. O ataque ia agora dirigir-se para o bolso interior do casaco e pelo caminho, aquela mão marota tocou em algo frio e rijo. Os dois experientes dedos tactearam a coronha da Browning e pude ver pela cara de surpresa do marmanjo que insistia em encostar-se a mim, que este tomara consciência de ter metido os “garfos” onde não devia. Antes de ter tempo de retirar a mão de dentro da gabardina, num gesto rápido agarrei-lhe o pulso enquanto que lhe rodeava o pulso com uma das algemas. Quando ouviu o “clic” do fecho das pulseiras o larápio ficou lívido. Na sua expressão lia-se claramente a frase merda! … é bófia!.

- Dás um pio aqui dentro e algemo-te ao varão. Depois o resto da malta que faça o que entender – fui-lhe dizendo calmamente, sem alarme e com a discrição que o momento exigia, algemando o outro par das algemas ao meu pulso esquerdo.

- Eh pá, não faça isso sr. Agente, não é preciso tanto – suplicou o meliante.

- Pois, então mantém-te “pianinho” ou levas aqui uma coça que nem sabes a terra de onde és! – voltei em tom sibilino e disfarçando uma amena cavaqueira com ele – sais comigo agora, no Rossio e vais dar um passeio comigo à Rua Capelo.

- Rua Capelo?! – os olhos pareciam os de um besugo, tal o efeito da palavra ouvida – para a Capelo não! Não pode ser para outra?

Pela conversa vi logo que o artista era cliente da casa pelo que olhei atentamente para a sua cara. Pois é. Era o Serginho, discípulo do Brites, o “Treinador” e companheiro nestas andanças do habilidoso Cardoso, o “Chula”.

Chegámos ao Rossio. Antes de sair, retirei a gabardina de forma a tapar as algemas e disse-lhe que se mantivesse junto a mim, não fazendo ondas. O mariola acedeu, consciente que à mais mínima desconfiança de quem seguia em volta, ele seria o primeiro alvo de alguma vítima da sua ou dos seus pares. O melhor era mesmo sair dali de fininho. Passámos em frente ao Nicola, cumprimentei a Dª Guilhermina que enrolou um bom-dia com meia dúzia de castanhas enquanto do outro lado o Ti Ramiro puxava o brilho ao sapato de um cliente, olhando por cima dos óculos, observando atentamente, como sempre, tudo o que se passava em redor da Praça

- Bom dia menino. Leve lá estas castanhinhas para o Sr. e para o seu colega, para aquecerem logo de manhã.

- Obrigado Dª Guilhermina, quanto é? – respondi.

- Um beijinho cá à velhota é quanto chega; isso é lá conversa prá gente – ripostou a simpática idosa.

Seguimos Rua do Carmo acima, ambos lado a lado, escondendo aquela união metálica que acabara de “unir” os nossos destinos, só com uma gabardina pelo meio, a caminho da consumação dessa união no gabinete do piquete.

Entrei pelo edifício com honras de herói. Tinha caçado o Serginho, tirando vantagem do efeito surpresa, claro, mas ali estava eu, com a presa dominada, sentindo-me um caçador regressado de um safari africano. Foi rodeado de colegas mais velhos eu de imediato me deram os parabéns e não pouparam o Serginho a umas bocas que soavam mais a censura que a gozo.

- Havias de cair algum dia! Perdeste faculdades o quê?!... Olha o Serginho foi apanhado na flagra!... És mesmo “To-Tó”, dar a palmada a um “bófia”! O puto novo apanhou o Serginho!...

O meu ego estava do tamanho do mundo. O Serginho era presa difícil de apanhar já que conhecia todo o efectivo policial das redondezas a milhas de distância.

- É sempre assim. São os novos que os apanham. Parabéns Cruz – o Comissário Pereira, Chefe da SJ, alertado para o acontecimento, viera do seu gabinete dar uma espreitadela – Olá Serginho… vi que ganhaste umas pulseiras novas! Diz lá que aí o Sr. Agente não é um tipo porreiro.

- Essas algemas não são da ordem, pois não. São das boas!... – observou o Pacheco – o puto esmerou-se, viram!

- Pois é, aqui o sr. Serginho estreou uma jóia nova! Não é para todos nem todos os dias. Mas já podem acabar com isso e retirar-lhas, antes que ele queira ficar com elas. Toca a fazer o expediente; vamos trabalhar para ver se ainda vai de manhã ao Dr. Juiz - rematou o comandante, homem de acção e comedido em ironias. Com ele, duas bocas chegavam, nada de massacrar. Dizia poucas, mas boas e isso chegava.

De imediato, levanto-me e começo a procurar as chaves das algemas. Raios, tantos bolsos, onde andavam elas?

- Problemas Cruz? Mau! Querem lá ver que o Serginho te “papou” o cabedal! – gracejaram alguns camaradas.

- Vá lá Cruz, desamarra-te do tipo para a gente ver se o pardalito tem alguma coisa com ele.

- Eh pá! Não encontro a porra das chaves. Acho que as deixei em casa! – respondi.

- Ora, deixa lá isso agora abre mas é as pulseiras que estas chaves são diferentes das nossas.

- Pois, esse é o problema – acabara de me lembrar do que me tinha esquecido - Tenho vindo todo o caminho a tentar recordar-me de algo que me esqueci…

- Problema? Que problema?

- As chaves das algemas estão no chaveiro, com as chaves de casa… e a minha mulher não está lá, foi trabalhar.

Aquela união ao Serginho ficou marcada por uma longa espera. O tempo suficiente para o pessoal da brigada ir comigo ao Areeiro, a uma conhecida casa de chaves, para consumar o “divórcio”.


domingo, janeiro 22

Eleições Presidenciais: Uma Constatação e Um Apelo




Como qualquer cidadão preocupado com o País, o seu presente de crise e o seu futuro que se apresenta nebuloso e incerto, tenho acompanhado pelos meios de comunicação social a pré-campanha e agora a campanha eleitoral para a Presidência da República, não só através das notícias mas também dos artigos que os comentadores têm vindo a escrever abundantemente. Por mais monárquico que seja e me confesse, não posso deixar de valorizar uma eleição para uma função na hierarquia do Estado republicano, a que a Constituição da República em que infelizmente vivo atribui poderes suficientemente relevantes para ter importância na vida política nacional.

E se monárquico sou e me confesso, com esta disputa eleitoral mais monárquico me confirmo e me confesso por razões de inteligência. Porque reconfirmei, uma vez mais, que o que os republicanos semi-presidencialistas (onde pouquíssimos são excepção) pretendem para o seu presidente é os atributos de um rei constitucional: supra-partidarismo, independência, poder moderador (a que republicanamente alcunham de “magistério de influência”) e se tornem depois de eleitos, por artes republicanas, “presidentes de todos os portugueses”, apesar de acharem bem e natural que os presidentes sejam oriundos de partidos políticos e apoiados por partidos ou militantes, enquanto tal, de partidos políticos (é esse o supra-partidarismo), defendam ideias e políticas de uma determinada área ideológica e tenham como apoiantes expressos os nomes mais sonantes entre o patronato ou entre os sindicatos (é essa a independência). E reconfirmei que o que os republicanos (pelo menos alguns) não querem é que o presidente possa recandidatar-se mais do que duas vezes (a partir de três é uma atitude “monárquica” no dizer do candidato-poeta Alegre) e tenha mais de 67 anos, mesmo se uma idade mais avançada e mais de dois mandatos conferirem ao candidato um acumular de experiência nas suas funções que possam ser hipoteticamente uma mais-valia. E devo esclarecer, desde já, e sem ser entre parêntesis, que não estou a defender a candidatura do Dr. Mário Soares; nem a dele nem a de nenhum outro candidato. É, apenas, uma constatação curiosa dos conceitos de democracia e de lógica republicanos: para quem mais importante do que a qualificação pela educação (no caso dos reis) ou pelo acumular de conhecimento adquirido (no caso dos presidentes) é a “renovação política”, ou seja, a sucessão de diferentes presidentes (de preferência na meia idade) que da função só conhecem o que diz a Constituição da República e que mal ficam a saber algo mais são substituídos. São os mesmos que reclamam para todas as mais altas funções, do Estado ou da sociedade civil, cada vez mais qualificações (excepto se forem para os boys do partido, é claro).

Constatei ainda que todos os candidatos à presidência semi-presidencialista da República concorrem afinal a Primeiro-Ministro, com os seus “manifestos” que são programas de governo que sabem que não vão executar e muito menos impor aos governos deles independentes: já lá vão várias revisões constitucionais os tempos em que ao presidente era permitido nomear governos ditos de “iniciativa presidencial”, fora dos partidos e de acordo com o entendimento de governação do presidente. E que dos poderes efectivos que têm pouco falaram, excepto do de dissolução, porque desse todos têm medo, especialmente os governos da área política oposta ao presidente. E que de uma luta entre esquerda e direita se trata, mesmo se todos (os três que não são líderes partidários) se querem candidatos supra-partidários e independentes.

E a conclusão a que cheguei, meses depois da pré-campanha e dias depois de se iniciar a campanha é que os republicanos que hoje temos querem para o seu presidente é uma caricatura de um rei, com os atributos da realeza e os conceitos igualitários e de exclusiva legitimidade eleitoral da república. O que sendo uma amálgama de contraditórios se anula.

Por isso deixo aqui um apelo aos republicanos inteligentes e sensatos que tal como eu, monárquico, são antes de tudo portugueses e antepõem às suas convicções políticas o amor a Portugal e querem, acima de tudo, o bem dos portugueses: optem pelo rei como Chefe do Estado verdadeiramente independente e supra-partidário, educado para o serviço público e as funções que exerce, factor de estabilidade e experiência na chefia do Estado. E se os seus complexos tentarem falar mais alto, olhem em redor: para a desenvolvida e moderna Espanha logo aqui ao lado, para as progressistas monarquias escandinavas, holandesa, belga, britânica e luxemburguesa. Para a estabilidade política e prestígio das suas chefias do Estado e para os níveis de desenvolvimento político, económico, social e cultural dos seus povos. A inteligência afirmará o que a emoção negar.

* Nota: o texto publicado é da exclusiva responsabilidade do autor.
in: PORTUGAL quintafeira.com


quarta-feira, janeiro 18

Soares segundo Miguel Sousa Tavares



(...)A sua tarefa, à partida, era simultaneamente simples e tremenda: conseguir explicar porque estava de volta, quando ninguém conseguia entender a necessidade para tal. Falhou em toda a linha, e falhou logo desde o constrangedor discurso de apresentação da candidatura, em que, das marchas contra a Guerra do Iraque, passando pela sua preocupação com os homossexuais, não houve nada a que não recorresse para nos garantir que continuava vivo, activo e «moderno». A campanha, todavia, mostrou-nos um candidato obcecado com o passado - e particularmente com o passado de Cavaco Silva - e que, quanto ao futuro, apenas nos jurou que, em Belém, nada iria fazer porque nada podia fazer. E assim todos poderíamos dormir descansados(...)

in:SEMANÁRIO EXPRESSO Miguel Sousa Tavares no Expresso



domingo, janeiro 15

O LADRÃO QUE VEIO DO AR (ou o azar de Miqueias)

Quando se fala tanto da falta de respeito para com a autoridade do Estado e em especial para com aqueles que a corporizam, vem-me à memória um episódio que demonstra bem ao ponto a que as coisas chegaram. Falta de princípios? Desespero? Falta de noção dos seus actos ou excesso de confiança na sua sorte? O relato que se segue, não mete tiros, nem danos físicos – digo eu, que não estava presente – mas suponho que arrancará alguns sorrisos a quem o ler, tal como terá sucedido a todos quanto tiveram conhecimento dos factos.

O clima andava pesado no Departamento. Não é nada agradável para ninguém chegar um dia ao seu local de trabalho e verificar que este foi alvo de uma visita de amigos do alheio. Fora isso que acontecera e a malta andava num afã terrível para deitar a mão ao autor de tal façanha. Tinham furtado uma impressora do gabinete de apoio da Esquadra e ainda um rádio-leitor de cd’s do agente Vítor. Algo nos levava a desconfiar que a obra teria sido perpetrada por um só indivíduo, já que o sítio estava pejado de maquinaria mais valiosa de menor volume. O tipo entrara pelo tecto falso e andara ali por dentro a remexer nos gabinetes, mas só levou aqueles objectos; teria ele controlado os movimentos das diferentes brigadas e aproveitado no fim-de-semana para furtar no Departamento? Só poderia ser, já que só conhecendo bem os movimentos da casa alguém poderia arriscar tal empresa e estava fora de questão ter sido alguém da equipa o responsável pelo desaparecimento dos objectos.

O Chefe estava furibundo e obrigou ao redobrar de atenção e procedimentos de segurança no local, entre os quais, passagens frequentes e inopinadas das equipas de serviço pelas instalações, em especial aos sábados, domingos e feriados para prevenir futuras “visitas”.

No sábado a seguir ao assalto, Lizandro decidiu despachar uma série de processos que lhe estavam distribuídos e aproveitou a calma da tarde desse dia para se dedicar a essa tarefa.

A estação do Rossio não tinha o bulício habitual dos dias de semana. Não se via mais ninguém além daqueles que há muito, faziam parte do quadro da entrada do Terminal. O “pulga”, sem-abrigo, com a sua farta cabeleira e barba, autêntico clone do Barry Gibb dos Bee Gees dos anos 70, alternando entre a entrada e a gare, os funcionários dos quiosques de jornais e do mini bar, os homens das bilheteiras, dois ou três taxistas à espera de clientes e os inevitáveis prostitutos e “voyeurs” de pilinhas alheias no WC da estação. Tudo normal. O dedicado agente, entrou no Departamento e logo se dispôs a dar vazão às conclusões que tinha em mão. Sentou-se em frente ao computador e começou a escrever. Só o som dos comboios e o matraquear das teclas contrastava com o silêncio da sala mas longe de distrair o rapaz que estava absorto na redacção de autos, informações, cotas e relatórios. Eis que, ao fim de algum tempo após ter iniciado o seu trabalho, algo interrompeu esta rotina de sons ambientais. Um som, vindo do tecto, despertou a sua atenção.

- Raio das ratazanas – terá pensado Lizandro – olhando para cima irritado com aqueles roedores que já lhe tinham roído um par de luvas de “motard”.

O barulho continuou e algo de estranho tinha. Não se parecia nada com o som de patas de roedor. Os gatos também não faziam barulho daqueles. Mais parecia um rastejar, mesmo ali por cima da sua cabeça. Olhou para cima ao mesmo tempo que alguns grãos de pó e areia caíam sobre si. Estaria o tecto falso prestes a desabar? Não teve tempo de colocar mais hipóteses acerca do que estaria a provocar os ruídos. Mesmo por cima dele, as placas precipitaram-se para o solo e do meio da nuvem de pó subsequente, junto com elas, o corpo franzino de um homem que literalmente aterrou no colo do polícia. Incrédulo, Lizandro fitou o recém aparecido como um parteiro o fará certamente após o nascimento de uma criança. Ali nos seus braços, envolto em fuligem, pó e destroços do tecto falso, estava Miqueias, um errante cidadão do mundo, brasileiro, com a massa muscular suficiente para manter o esqueleto erecto e que após abrir os olhos, vendo-se no “aconchego” dos braços de Hercúleo agente balbuciou um característico “Oi!... como vai!... tudo bem com você?...”

Lizandro, ainda incrédulo pela “aparição”, agarrou no atrevido pelas costas da camisa, lançou-o ao chão e algemou-o ali mesmo.

- Quem és tu, pá. O que fazes aqui? – gritou o surpreendido Lizandro.

- Desculpa “seu” guarda, pensava que não tinha ninguém… - respondeu o Miqueias.

- Vinhas aqui fazer o quê, responde já?!?!...

- Vinha falar com um “policial”, colega seu… – tornou o larápio, não escondendo a mentira esfarrapada.

Poupo-me a pormenores do que se passou a seguir, não porque não os possa contar, mas para salvaguardar a intimidade dos primeiros momentos entre um “pai” e “filho” que devem ser respeitados. Apurou-se que o assaltante pretendia continuar a “limpar” o recheio da Brigada já que tinha sido ele quem no sábado anterior o larápio da impressora e do rádio-cd. O rapazola tinha sido levado ao Departamento, dias antes para ser identificado, por suspeita de furtos e roubos na área do Rossio e tivera o tempo suficiente para congeminar a transferência da propriedade da panóplia de tecnologia ali exposta e fácil de transportar.

Confrontado com uma oportunidade de amenizar as consequências da sua ousadia caso restituísse os artigos que furtara na semana anterior, o Miqueias, lá se comprometeu a devolver os mesmos. Assim, foi preso, presente na segunda-feira seguinte ao Tribunal que lhe instaurou Termo de Identidade e Residência (estranho sempre este procedimento legal quanto aos sem-abrigo, mas deve ser pelo apregoado excesso de prisão preventiva!) e na terça-feira ao final da tarde, lá estava ele, à porta do Departamento, com a impressora recuperada. O rádio, esse “já era”, ou seja, já tinha sido despachado. Conforme o prometido, foram elaborados autos da ocorrência abonando em seu favor tal comportamento tendo-me cabido tal tarefa.

- Estás arrependido ou nem por isso? – perguntei-lhe a certa altura.

- Nunca mais me meto noutra – garantiu o Miqueias.

- Vejo que coxeias e que a tua cara não está muito bem tratada… caíste?

- Não Chefe, não é nada não!...

- Alguém te bateu aqui dentro? Olha, garantiram-me que não… vê lá o que foste dizer lá para o Dr. Juiz. Sei o que se passou e não gosto de acusações sobre factos que não aconteceram. Essas mazelas que tens, foram por causa da queda do tecto?

- Não senhor… foi o pessoal lá do Intendente.

-Então, andaste à “pêra” por causa de alguma ganza ou quê?

- Que nada! Foi o homem que tinha a impressora e seus “capangas”…

- Não me digas! Deixa-me ver; não lhe disseste que era para devolver à polícia ou então nós íamos lá apreender tudo o que ele tivesse na loja?!? Foi isso que te disseram para fazer, não foi?

- Pois, eu fiz igualzinho a isso aí, mas antes de lhe dizer isso, ele me jogou a impressora na cabeça, todo irado!...

- Porquê? Disse algo a alguém que ia passar por lá?

- Não… o cara diz que eu o enganei em 25€. Experimentou o aparelho e estava quebrado… aí, me carregaram de porrada.

- Eh! Pá! Que azar!

- Que nada, senhor, sorte!...

- Sorte?!?! Levas um “arraial” desses e dizes que tens sorte?!?!

O mariola, retirou 20€ do bolso das calças e terminou o raciocínio lógico:

- Sorte sim; se me pedissem o dinheiro de volta, talvez não estivesse aqui para devolver o aparelho…

Bem vistas as coisas, talvez tivesse razão; com tanto azar poderia ter sido bem pior!...


sábado, janeiro 14

O POVINHO É MESMO TANSO...

UMA LISTA DE BORLISTAS

(...)Os 64 nomes que constam da listagem ontem revelada não pagam telefone. Esta situação é facilmente explicada, se tomarmos em conta que a Portugal Telecom tem um sistema informático que gera informação agregada por cliente e não por número da linha de rede.

Nessa sua listagem de clientes, existe um ficheiro chamado “Estado” onde se encontram
agregados todos os nomes de titulares de cargos públicos, ou de cidadãos que prestaram relevantes serviços à Nação e que, por decisão estatal, não pagam telefone.

Estão nestas condições, por exemplo, Mário Soares, que possui três residências e não paga paga telefone em nenhuma delas. Está também nesta situação, o próprio Presidente da República, Jorge Sampaio, o ex-presidente da Assembleia da República, Almeida Santos, vários ex-secretários de Estado, deputados e magistrados, como era o caso de Paulo Pedroso na altura das investigações.

Nem sempre o benefício concedido é a completa isenção do pagamento de facturas. Existem casos, onde o Estado define um ‘plafond’ de benefício que, se for ultrapassado, será debitado na
conta do particular. O número de beneficiários do Estado que não pagam telefone é muito superior àquele que ontem foi revelado, fixando-se em várias centenas.

Todos os dias a PT é solicitada por diversos Tribunais, a revelar o número de cliente de indivíduos que se encontram a contas com a Justiça, seja ela cível ou criminal.(...)

in: correio da manhã, ed. on-line

Aperta o cinto, Zé!...

sexta-feira, janeiro 13

Tabela de medições; ou mede mal ou estão a "comer-me"...

Dizem os tipos que a NETCABO está a “DOIS MEGAS”…

Tabela de medições

Relatório

Tabela de Medições

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José Cruz


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segunda-feira, janeiro 9

quinta-feira, janeiro 5

FUNDAMENTALISMOS IV

O DESEJADO???
(UM POUCO DESAJEITADO, CONVENHA-SE!...)

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FUNDAMENTALISMOS III

VÍTIMA DA PERSEGUIÇÃO...
(COITADINHO)


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FUNDAMENTALISMOS II

OBSECADO ANTI-DIREITA...



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FUNDAMENTALISMOS I

OU VAI OU RACHA...

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terça-feira, janeiro 3

Crónica do ano

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Campanhas políticas – Devido às eleições legislativas, das Autárquicas e das Presidenciais (felizmente ainda em curso), a campanha ininterrupta que atravessou 2005 habituou-nos mal. Certo: lamentamos o barulho, as promessas, o dinheiro gasto. No fundo, gostamos. Mais do que isso, 30 anos de democracia não nos removeram a ilusão vaga e idiota de que as campanhas, e a presumível mudança que lhes está implícita, ainda representam uma possibilidade de salvação, uma esperança de felicidade. Vamos sentir-lhes a falta. Por motivos completamente diferentes, o Governo também.

Cunhal, Álvaro – Morreu.

Gonçalves, Vasco – Idem.

Governo – Em questão de meses, apresentou ao País o rigor orçamental, a modernidade, o Plano Tecnológico, o aeroporto da Ota e o TGV. Pelo caminho, apresentou igualmente vultos como Fernando Gomes, Carlos Zorrinho e o mítico Armando Vara. Não valia a pena incomodar-se: estes nós já conhecíamos.

Incêndios florestais – Uma tradição recente, que tende a acentuar-se quando o Verão não dispõe de uma Expo, de um Euro ou de outra maravilha qualquer. São, portanto, uma espécie de desígnio nacional alternativo.

Lopes, Santana – Naturalmente, as gerações mais novas não acreditam, mas a verdade é que, há 12 longínquos meses, este homem era primeiro-ministro.

Londres, atentados de – Tal como sucedera no ano anterior com Aznar, em Madrid, a responsabilidade coube evidentemente ao governo de Blair, um reles capacho de Bush, e não aos terroristas. Curiosamente, quando, na sequência do 7 de Julho, um imigrante brasileiro foi morto pela polícia londrina, ninguém responsabilizou o sr. Lula ou o ‘mensalão’: a culpa ficou mesmo com a polícia.

‘Katrina’, furacão – Ao contrário do tsunami, uma catástrofe natural que não suscitou condenações aos governos (e aos regimes) da Indonésia, Sri Lanka e etc., parece que o ‘Katrina’ exibiu ao mundo a intrínseca desigualdade dos EUA e a imensa perfídia da administração Bush. Ao que se apurou, nenhum dos sobreviventes envergava a camisola da selecção portuguesa de futebol.

Motins em França – A acreditar nos especialistas, os imigrantes do Magreb não apreciam os bairros sociais franceses e os subsídios de desemprego franceses. A acreditar nos factos, também não apreciam a oferta automóvel francesa. O número de artigos jornalísticos intitulados ‘Paris já está a arder’ foi apenas ligeiramente inferior ao número de carros queimados.

Silva, Cavaco – Salvo melhor opinião, o regresso político do ano. Consta que já ganhou as “presidenciais”.

Soares, Mário – Salvo melhor opinião, o regresso político do ano. Consta que já perdeu as “presidenciais”.


Alberto Gonçalves (albertog@netcabo.pt)


in correio da manhã - ed. online de 2006-01-03

domingo, janeiro 1

FELIZ ANO NOVO ( Pró menino...)

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MAIS NADA!!!...

FELIZ 2006

TODOS PARA A FESTA


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ATÉ PARA O ANO
DIVIRTAM-SE

 

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