quinta-feira, fevereiro 2

SERGINHO ( Parte II )

Usava uma gabardina verde-tropa, dessas com bolsos falsos, para aceder mais facilmente aos bolsos do casaco. Através do reflexo do vidro, além do emaranhado de pernas atrás de mim podia ver o ferro que transportava pendendo na sovaqueira. Tentava recordar-me de algo que sabia importante, mas não conseguia saber o que era. Era importante, mas não conseguia trazer à ideia o que me provocava a sensação de ter esquecido de algo, ou de ter algo para fazer nesse dia. Que raio, a carteira também não era, enfim, sono tem destas coisas. O que fosse lembrar-me-ia quando fizesse falta. Envolto nestas cogitações, eis que vislumbro algo que me retirou deste estado de pré-hipnose. Pelo mesmo reflexo do vidro, vejo uma mão marota, com dois dedos em riste, à laia de tenaz a esgueirar-se tal e qual uma serpente para o interior do bolso direito do casaco. Rapidamente contei - uma mão mais outra mão, são duas mãos - as minhas claro as que me amparavam contra o vidro. Ora, salvo alguma transformação tipo divindade da Indochina, aquela terceira mão não era minha, logo estava fora do contexto; quer dizer, no contexto estava, mas não no certo. Arqueei um pouco mais o tronco para facilitar a vida ao insinuante membro enquanto que calmamente, com a mão esquerda peguei no par de algemas novas que tinha à cintura e aguardei que a presa desferisse o ataque final. Não foi preciso esperar muito já que para azar do intruso a única coisa dentro do bolso era um lenço, por sinal limpinho (sorte a dele) e que não lhe devia fazer falta. O ataque ia agora dirigir-se para o bolso interior do casaco e pelo caminho, aquela mão marota tocou em algo frio e rijo. Os dois experientes dedos tactearam a coronha da Browning e pude ver pela cara de surpresa do marmanjo que insistia em encostar-se a mim, que este tomara consciência de ter metido os “garfos” onde não devia. Antes de ter tempo de retirar a mão de dentro da gabardina, num gesto rápido agarrei-lhe o pulso enquanto que lhe rodeava o pulso com uma das algemas. Quando ouviu o “clic” do fecho das pulseiras o larápio ficou lívido. Na sua expressão lia-se claramente a frase merda! … é bófia!.

- Dás um pio aqui dentro e algemo-te ao varão. Depois o resto da malta que faça o que entender – fui-lhe dizendo calmamente, sem alarme e com a discrição que o momento exigia, algemando o outro par das algemas ao meu pulso esquerdo.

- Eh pá, não faça isso sr. Agente, não é preciso tanto – suplicou o meliante.

- Pois, então mantém-te “pianinho” ou levas aqui uma coça que nem sabes a terra de onde és! – voltei em tom sibilino e disfarçando uma amena cavaqueira com ele – sais comigo agora, no Rossio e vais dar um passeio comigo à Rua Capelo.

- Rua Capelo?! – os olhos pareciam os de um besugo, tal o efeito da palavra ouvida – para a Capelo não! Não pode ser para outra?

Pela conversa vi logo que o artista era cliente da casa pelo que olhei atentamente para a sua cara. Pois é. Era o Serginho, discípulo do Brites, o “Treinador” e companheiro nestas andanças do habilidoso Cardoso, o “Chula”.

Chegámos ao Rossio. Antes de sair, retirei a gabardina de forma a tapar as algemas e disse-lhe que se mantivesse junto a mim, não fazendo ondas. O mariola acedeu, consciente que à mais mínima desconfiança de quem seguia em volta, ele seria o primeiro alvo de alguma vítima da sua ou dos seus pares. O melhor era mesmo sair dali de fininho. Passámos em frente ao Nicola, cumprimentei a Dª Guilhermina que enrolou um bom-dia com meia dúzia de castanhas enquanto do outro lado o Ti Ramiro puxava o brilho ao sapato de um cliente, olhando por cima dos óculos, observando atentamente, como sempre, tudo o que se passava em redor da Praça

- Bom dia menino. Leve lá estas castanhinhas para o Sr. e para o seu colega, para aquecerem logo de manhã.

- Obrigado Dª Guilhermina, quanto é? – respondi.

- Um beijinho cá à velhota é quanto chega; isso é lá conversa prá gente – ripostou a simpática idosa.

Seguimos Rua do Carmo acima, ambos lado a lado, escondendo aquela união metálica que acabara de “unir” os nossos destinos, só com uma gabardina pelo meio, a caminho da consumação dessa união no gabinete do piquete.

Entrei pelo edifício com honras de herói. Tinha caçado o Serginho, tirando vantagem do efeito surpresa, claro, mas ali estava eu, com a presa dominada, sentindo-me um caçador regressado de um safari africano. Foi rodeado de colegas mais velhos eu de imediato me deram os parabéns e não pouparam o Serginho a umas bocas que soavam mais a censura que a gozo.

- Havias de cair algum dia! Perdeste faculdades o quê?!... Olha o Serginho foi apanhado na flagra!... És mesmo “To-Tó”, dar a palmada a um “bófia”! O puto novo apanhou o Serginho!...

O meu ego estava do tamanho do mundo. O Serginho era presa difícil de apanhar já que conhecia todo o efectivo policial das redondezas a milhas de distância.

- É sempre assim. São os novos que os apanham. Parabéns Cruz – o Comissário Pereira, Chefe da SJ, alertado para o acontecimento, viera do seu gabinete dar uma espreitadela – Olá Serginho… vi que ganhaste umas pulseiras novas! Diz lá que aí o Sr. Agente não é um tipo porreiro.

- Essas algemas não são da ordem, pois não. São das boas!... – observou o Pacheco – o puto esmerou-se, viram!

- Pois é, aqui o sr. Serginho estreou uma jóia nova! Não é para todos nem todos os dias. Mas já podem acabar com isso e retirar-lhas, antes que ele queira ficar com elas. Toca a fazer o expediente; vamos trabalhar para ver se ainda vai de manhã ao Dr. Juiz - rematou o comandante, homem de acção e comedido em ironias. Com ele, duas bocas chegavam, nada de massacrar. Dizia poucas, mas boas e isso chegava.

De imediato, levanto-me e começo a procurar as chaves das algemas. Raios, tantos bolsos, onde andavam elas?

- Problemas Cruz? Mau! Querem lá ver que o Serginho te “papou” o cabedal! – gracejaram alguns camaradas.

- Vá lá Cruz, desamarra-te do tipo para a gente ver se o pardalito tem alguma coisa com ele.

- Eh pá! Não encontro a porra das chaves. Acho que as deixei em casa! – respondi.

- Ora, deixa lá isso agora abre mas é as pulseiras que estas chaves são diferentes das nossas.

- Pois, esse é o problema – acabara de me lembrar do que me tinha esquecido - Tenho vindo todo o caminho a tentar recordar-me de algo que me esqueci…

- Problema? Que problema?

- As chaves das algemas estão no chaveiro, com as chaves de casa… e a minha mulher não está lá, foi trabalhar.

Aquela união ao Serginho ficou marcada por uma longa espera. O tempo suficiente para o pessoal da brigada ir comigo ao Areeiro, a uma conhecida casa de chaves, para consumar o “divórcio”.


domingo, janeiro 22

Eleições Presidenciais: Uma Constatação e Um Apelo




Como qualquer cidadão preocupado com o País, o seu presente de crise e o seu futuro que se apresenta nebuloso e incerto, tenho acompanhado pelos meios de comunicação social a pré-campanha e agora a campanha eleitoral para a Presidência da República, não só através das notícias mas também dos artigos que os comentadores têm vindo a escrever abundantemente. Por mais monárquico que seja e me confesse, não posso deixar de valorizar uma eleição para uma função na hierarquia do Estado republicano, a que a Constituição da República em que infelizmente vivo atribui poderes suficientemente relevantes para ter importância na vida política nacional.

E se monárquico sou e me confesso, com esta disputa eleitoral mais monárquico me confirmo e me confesso por razões de inteligência. Porque reconfirmei, uma vez mais, que o que os republicanos semi-presidencialistas (onde pouquíssimos são excepção) pretendem para o seu presidente é os atributos de um rei constitucional: supra-partidarismo, independência, poder moderador (a que republicanamente alcunham de “magistério de influência”) e se tornem depois de eleitos, por artes republicanas, “presidentes de todos os portugueses”, apesar de acharem bem e natural que os presidentes sejam oriundos de partidos políticos e apoiados por partidos ou militantes, enquanto tal, de partidos políticos (é esse o supra-partidarismo), defendam ideias e políticas de uma determinada área ideológica e tenham como apoiantes expressos os nomes mais sonantes entre o patronato ou entre os sindicatos (é essa a independência). E reconfirmei que o que os republicanos (pelo menos alguns) não querem é que o presidente possa recandidatar-se mais do que duas vezes (a partir de três é uma atitude “monárquica” no dizer do candidato-poeta Alegre) e tenha mais de 67 anos, mesmo se uma idade mais avançada e mais de dois mandatos conferirem ao candidato um acumular de experiência nas suas funções que possam ser hipoteticamente uma mais-valia. E devo esclarecer, desde já, e sem ser entre parêntesis, que não estou a defender a candidatura do Dr. Mário Soares; nem a dele nem a de nenhum outro candidato. É, apenas, uma constatação curiosa dos conceitos de democracia e de lógica republicanos: para quem mais importante do que a qualificação pela educação (no caso dos reis) ou pelo acumular de conhecimento adquirido (no caso dos presidentes) é a “renovação política”, ou seja, a sucessão de diferentes presidentes (de preferência na meia idade) que da função só conhecem o que diz a Constituição da República e que mal ficam a saber algo mais são substituídos. São os mesmos que reclamam para todas as mais altas funções, do Estado ou da sociedade civil, cada vez mais qualificações (excepto se forem para os boys do partido, é claro).

Constatei ainda que todos os candidatos à presidência semi-presidencialista da República concorrem afinal a Primeiro-Ministro, com os seus “manifestos” que são programas de governo que sabem que não vão executar e muito menos impor aos governos deles independentes: já lá vão várias revisões constitucionais os tempos em que ao presidente era permitido nomear governos ditos de “iniciativa presidencial”, fora dos partidos e de acordo com o entendimento de governação do presidente. E que dos poderes efectivos que têm pouco falaram, excepto do de dissolução, porque desse todos têm medo, especialmente os governos da área política oposta ao presidente. E que de uma luta entre esquerda e direita se trata, mesmo se todos (os três que não são líderes partidários) se querem candidatos supra-partidários e independentes.

E a conclusão a que cheguei, meses depois da pré-campanha e dias depois de se iniciar a campanha é que os republicanos que hoje temos querem para o seu presidente é uma caricatura de um rei, com os atributos da realeza e os conceitos igualitários e de exclusiva legitimidade eleitoral da república. O que sendo uma amálgama de contraditórios se anula.

Por isso deixo aqui um apelo aos republicanos inteligentes e sensatos que tal como eu, monárquico, são antes de tudo portugueses e antepõem às suas convicções políticas o amor a Portugal e querem, acima de tudo, o bem dos portugueses: optem pelo rei como Chefe do Estado verdadeiramente independente e supra-partidário, educado para o serviço público e as funções que exerce, factor de estabilidade e experiência na chefia do Estado. E se os seus complexos tentarem falar mais alto, olhem em redor: para a desenvolvida e moderna Espanha logo aqui ao lado, para as progressistas monarquias escandinavas, holandesa, belga, britânica e luxemburguesa. Para a estabilidade política e prestígio das suas chefias do Estado e para os níveis de desenvolvimento político, económico, social e cultural dos seus povos. A inteligência afirmará o que a emoção negar.

* Nota: o texto publicado é da exclusiva responsabilidade do autor.
in: PORTUGAL quintafeira.com


 

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