terça-feira, dezembro 13

ATÉ SEMPRE CAMARADA



Image Hosted by ImageShack.us

Sérgio Martins, Chefe da PSP de Lagos, 49 anos

Image Hosted by ImageShack.us


quarta-feira, dezembro 7

Portuguesada na terra dos "beefs"


Image Hosted by ImageShack.us

Pois é, maravilha das maravilhas, isto de ter teclados com acentos e cedilhas, em que a simbologia está no sítio certo. Sempre que saio do rectângulo, sinto, cada vez mais, aquilo que sente quem procura lá fora um melhor futuro para as suas vidas. Desta vez, foi demais; para mim, chegou o momento para dizer basta. Cada vez mais me sinto mal quando ouço falar mal do nosso país, de forma gratuita e leve. Vou passar a somar os prós e os contras das comparações e avaliações entre a maneira de ser de outros povos, de outras gentes e de outras culturas, analisá-los e compará-los com maior rigor e só depois fazer juízos de valor acerca deste país e dos seus paisanos.
Porque será que este tipo, que até costuma falar com certa simpatia pelos "bifes", está para aqui com esta prosa, perguntarão alguns. Pois, pela simples razão de cada vez mais me sentir um aldeão desta grande Aldeia Global e achar, cada vez mais, uma verdadeira cretinice certos conceitos exacerbados de nacionalismos bacocos, que nada têm a ver com a realidade do mundo que a pouco e pouco se torna, cada vez mais, pequeno para conter tantas fronteiras, diferenças e individualismos colectivos e culturais, fechados dentro de si próprios. (estou com um discurso de esquerda e nada de acordo com as minhas convicções acerca do regime político que gostaria de ver cá pela terra, mas para mim, convicções à parte, essa conversa de esquerdas e direitas está actualmente metida no mesmo saco dos conservadorismos ideológicos.). Mais que nunca me apercebo ser uma estupidez defender a originalidade cultural de um povo segundo parâmetros conservadores, quer sejam eles britanicamente Vitorianos ou os mais lusos "Mariano-cachuchenses" (desculpem o neologismo), e reagir letargicamente como um mexilhão acossado pelas pinças de um caranguejo, sem querer saber se o crustáceo está só de passagem junto do bivalve ou se, pelo contrário, está ali para lhe cortar a carne com as suas pinças, fechando-se dentro de casa sem sequer tentar forçar

quinta-feira, novembro 24

Al Qaeda quis explodir o Cristo Rei...

Al Qaeda quis explodir o Cristo-Rei em Almada

Documentos mantidos em sigilo pela Polícia Judiciária revelam que a Al Qaeda, organização terrorista de Osama Bin Laden, ordenou a execução de um atentado em Portugal. O alvo da acção seria a estátua do Cristo-Rei, localizada em Almada.

De acordo com informações obtidas hoje em Lisboa, a ordem de Bin Laden decorreu do ódio que o saudita nutre por símbolos monumentais católicos, que segundo ele representam “um símbolo da globalização dos infiéis”.

Demolidor de ídolos e iconoclasta como os talibãs que explodiram estátuas de Buda no Afeganistão, ele destacou dois mujahedins para o sequestro e uso de um avião que seria lançado contra a estátua “símbolo dos infiéis cristãos”.

Os registos da polícia Judiciária dão conta de que os dois terroristas chegaram ao Aeroporto Internacional da Portela em 4 de Setembro, Domingo, às 21h47m, no vôo da Air France procedente do Canadá, com escala em Londres.

A missão começou a sofrer embaraços já no desembarque, quando a bagagem dos muçulmanos foi extraviada. Após quase seis horas de peregrinação por diversos guichés e dificuldade de comunicação em virtude do Inglês fortemente marcado por sotaque árabe, os dois saem do aeroporto, aconselhados por funcionários da TAP a voltar no dia seguinte, com intérprete.

A Polícia Judiciária investiga a possibilidade de eles terem apanhado um táxi pirata na saída do aeroporto, pois o motorista percebeu que eram estrangeiros e rodou uma hora e meia dando voltas com eles pela cidade, até abandoná-los em lugar ermo do Casal Ventoso. Aí, acabaram por ser assaltados e espancados por um grupo de toxicodependentes desesperados.

Eles conseguiram ficar com alguns dólares que tinham escondido em cintos próprios para transportar dinheiro e apanharam boleia num camião que fazia distribuição de garrafas de gás.

Na segunda-feira, às 7h33m, graças ao treino de guerrilha que receberam nas cavernas do Afeganistão e nos campos minados da Somália, os dois terroristas conseguem chegar a um hotel do Estoril. Alugaram um carro na Avis e voltaram ao aeroporto, determinados a sequestrar um avião e atirá-lo bem no meio dos braços abertos do Cristo-Rei.

Enfrentam um congestionamento monstruoso na 2ª circular e ficam mais de 3 horas bloqueados no Campo Grande por causa de uma manifestação de estudantes e professores em greve, e na Av. Do Brasil são-lhes roubados os relógios por um gang da Zona J.

Às 12h30m, resolvem ir para o Centro da cidade e procuram uma casa de câmbio para trocar o pouco que sobrou de dólares. Recebem notas de 100 Euros falsas. Por fim, às 15h45m chegam ao aeroporto da Portela para sequestrar um avião. Os pilotos da TAP estão em greve por mais salário e menos horas de trabalho.

Os controladores de vôo também pararam (querem equiparação aos pilotos). O único avião na pista é da AIR PORTUGÁLIA, mas está sem combustível.

Tripulações e passageiros estão acantonados na sala de espera e nos corredores do aeroporto, gritando slogans contra o governo.

O Batalhão da POLÍCIA DE CHOQUE chega batendo em todos, inclusive nos terroristas.

Os árabes são conduzidos à Esquadra da PSP do aeroporto, acusados de tráfico de drogas, em face de flagrante forjado pelos próprios polícias, que “plantaram” papelotes de cocaína nos bolsos dos dois. Às 18 horas, aproveitando uma manifestação dos guardas prisionais clamando subsídio de risco, eles conseguem fugir da prisão no meio da confusão e do tiroteio das brigadas anti-motim da PSP que entretanto tinha sido destacada para o local pelo Ministro da Administração Interna.

Às 19h05m, os muçulmanos, ainda ensanguentados, dirigem-se ao balcão da TAP para comprar as passagens. Mas o funcionário que lhes vende os bilhetes omite a informação de que os voos da companhia estão suspensos por tempo indeterminado. Eles, então, discutem entre si: começam a ficar em dúvida se destruir Lisboa, no fim de contas, é um acto terrorista ou uma obra de caridade.

Às 23h30m, sujos e mortos de fome, decidem comer alguma coisa no restaurante do aeroporto. Pedem sandes de queijo com limonadas. Só na terça-feira, às 4h35m, conseguem recuperar-se da intoxicação alimentar de proporções equinas, decorrente da ingestão do queijo estragado usado nas sandes. Eles foram levados para o Hospital de Santa Maria, depois de terem esperado três horas para que a ambulância do INEM chegasse e percorresse diversos hospitais da rede pública até encontrar uma vaga. No HSM, foram atendidos por uma enfermeira feia e mal-humorada. Eles tiveram de esperar dois dias para serem examinados, por causa da cólera causada pela limonada feita com água contaminada por coliforme fecal.

Debilitados, só terão alta hospitalar no domingo.

Domingo, 18h20m: os homens de Bin Laden saem do hospital e chegam perto do estádio de Alvalade. O Benfica acabara de perder com o Sporting. A claque dos NO NAME BOYS confunde os terroristas com integrantes da JUVELEO e dá-lhes uma surra sem precedentes. O chefe da claque abusa sexualmente deles.

Às 19h45m, finalmente, são deixados em paz, com dores terríveis pelo corpo, em especial na área proctológica. Ao verem uma roullote de venda de bebida nas proximidades, decidem embriagar-se uma vez na vida e comer umas sandes de couratos (mesmo que seja pecado!). Tomam um bagaço adulterado com metanol e precisam voltar ao Santa Maria. Os médicos também diagnosticam gonorreia.

Segunda-Feira, 23h42m: os dois terroristas fogem de Lisboa escondidos na traseira de um camião de electrodomésticos, assaltado horas depois na Serra da Musgueira. Desnorteados, famintos, sem poder andar ou sentar-se, eles são levados por uma carrinha de Apoio aos Sem Abrigo, organização ligada aos direitos humanos para a área metropolitana de Lisboa. Viajam deitados de lado. Na capital novamente, deambulam o dia todo à cata de comida e por volta das 20 horas acabam adormecendo debaixo da marquise de uma loja na Rua do Coliseu, no centro. A Polícia Judiciária não revelou o hospital onde os dois foram desta vez internados em estado grave, depois de espancados quase até à morte por um grupo de SKINHEADS.

Sabe-se que a Polícia Judiciária deixou de se preocupar e vigiar estes membros da Al Qaeda por considerar que as suas intenções foram desvanecidas e já não constituem qualquer tipo de perigo à integridade nacional, e até os está a ajudar, tentando encontrar uma organização humanitária que lhes possa dar apoio para o regresso ao Afeganistão, isto tudo a pedido dos mesmos.

Rui Oliveira


terça-feira, novembro 15

O PRESENTE



A Madrugada corria calma na área de Benfica. O turno no carro patrulha era maravilhoso quando o rádio vomitava constantemente ocorrências para outras áreas enquanto na zona, as coisas estavam paradisíacas. Quando assim é, há o sentimento de dever cumprido, mas em contrapartida, a rotina alonga as horas muito para além do desejável. Na verdade, quando se tem algo para fazer de mais específico, o tempo voa e no final podemos respirar fundo e dizer, “amanhã há mais”. Seguíamos pela Av. Carolina Michaelis de Vasconcelos, a brisa fresca vinda de Monsanto entrando pelos vidros escancarados, perturbando a calmaria silenciosa que enredava casario e ruas quando de repente o Valente, o chefe da viatura policial, grita para o condutor:

- Pá, pára, está ali um gajo a fazer qualquer coisa.

O carro estacou, sem espalhafato e saímos todos para o exterior, interrogando-nos sobre o que teria visto o nosso camarada.

- O que se passa? O que foi que viste? – perguntei.

- Ali, repara, na porta daquele prédio. Não vês a cabeça de um tipo?

Agachados atrás de um carro estacionado, os três polícias miravam na direcção indicada. Efectivamente, via-se a cabeça de um indivíduo, aparentemente de cócoras, junto à porta de entrada a um prédio. Pé ante pé, evoluímos à laia de cerco, cada um por seu lado, de forma a tornearmos os veículos estacionados e surpreender o indivíduo, que não estaria a fazer coisa boa. Pelo lado que me aproximei, pude vê-lo de imediato. Oh! Ignomínia! O tipo estava estático porque tinha razões para isso. Nem ele se apercebera da patrulha policial, nem estava a roubar nada. Bastou-me olhar para o esgar de esforço (titânico, diga-se de passagem) que o fulano fazia, acompanhado de gemidos abafados por prolongadas flatulências para de imediato perceber que se encontrava em pleno acto de defecação. Grande lata; não contente com fazê-lo em plena via pública, ainda se dava ao luxo de aliviar os seus fétidos fluidos à porta de gente de bem.

- Eh pá! Que é isso, oh companheiro – gritou-lhe instintivamente o Valente perante tal falta de educação e civismo.

Se alguma dificuldade havia em levar avante a sua empresa, após ser assim abordado, com tamanha rudeza e surpresa, ela terminou logo ali, já que as palavras do polícia foram por assim dizer o “empurrãozito” final. O “parto” estava difícil, raios. Ficamos os três estarrecidos a contemplar aquele quadro. Fonseca, um conhecido ébrio do bairro, era o quadro da indignação digna do artista interrompido na concepção da sua obra e ferido em tamanha violação da sua privacidade. Ali estava ele, bamboleando perigosamente o corpo para a frente e para trás, em difícil equilíbrio, já que nestas ocasiões qualquer par de calças, mesmo de verão, é um empecilho, lembrando aquilo que terão sido os últimos momentos do Colosso de Rodes antes da sua derrocada. A custo, arrastou os pés para a frente, evitando destruir a perfumada escultura, mirando-a, como se de uma obra inacabada de Gaudi se tratasse. A bófia tinha-lhe interrompido aquele momento único de inspiração.

- Lindo serviço, sim senhor!

- Oh Senhor Valente… ia lá eu adivinhar que iam aparecer, logo agora!

- Ao menos ainda atinas; reconheces a merda que fizeste. E agora?

- Agora… agora… aí a velha, que limpe – continuou o artista, acenando com a cabeça para a janela da porteira do prédio.

Entretanto, os moradores começavam a subir os estores. Boa! O artista ia ter público e a julgar pelas caras de incómodo, não tinham sido as melgas quem tinha acordado a vizinhança. O quadro estava montado…

******************************************************************

Um dos moradores, decidiu vir cá abaixo. Trazia um ar de justiceiro, preparado para pôr termo ao “sururu” gerado. Na verdade, por mais que se tente ser discreto para com um ébrio, tal coisa torna-se empresa de difícil feitura; além da forma descontrolada como se exprimem, apresentam quase sempre níveis de decibéis incomodativos que em nada abonam em prol da paz e sossego urbanos, em especial à noite.

-Arre que não se pode pregar olho! Raio Srs. Guardas, não se pode resolver uma borracheira com menos barulho? – o homem, talvez devido à indignação do sonho interrompido pela algazarra, estacou na porta da entrada com ar de quem ia aplicar um correctivo a todos, polícias e garrafão.

- Boa-noite. A borracheira resolve-se… o que está à porta é que vai demorar um pouco mais – replicou Valente, olhando para o fétido presente, acabadinho de pisar pelo irritado senhor, que tanto arrebitara a sua altivez, que ficara com o ângulo de visão demasiado elevado para reparar na obra de arte.

Com uma daquelas vontades de rir às bandeiras despregadas, olhámos para o infortunado cidadão, que nem reacção teve para sair do sítio onde estacionara. O garrafão com pernas, esse olhava aterrorizado, não tanto por ver a sua criação ser espezinhada, mas por ver que a coisa ia sobrar para ele. O homem estava lívido de terror e o morador, verde de raiva. Cheguei mesmo a rezar para que o mesmo não investisse contra o “garrafão andante” já que, se ia ser desagradável conduzir este à esquadra com aquele “perfume”, pior seria ter de intervir para separar ambos caso se pusessem à pancada.

- Agora quem limpa esta porcaria toda!? – gritou o homem, prestes a explodir de raiva.

- Quem não é, sei eu – terão pensado todos os presentes (pelo menos eu pensei).

Entretanto surgira já em cena a inquilina do rés-do-chão, porteira do prédio há muitos anos e que perante tal visão ficou indignada.

- Pois, tinha de ser… tinha de sobrar para a desgraçada! Se fosse comigo, limpava esse calhordas – apontava para o embriagado, que cada vez mais via a sua vida a andar para trás – e havia de ser com a língua!

Qualquer pessoa sensata teria desaprovado tal pena a um condenado e claro, tal acto seria impraticável na presença da autoridade. Bolas, o homem não era nenhum animal! Contudo, conhecendo nós o infeliz, não seria crível que o mesmo se dispusesse a arcar as despesas da transferência da sua obra de arte e naquele momento, pô-lo a limpar o átrio da entrada, seria com toda a certeza, permitir que a sua “escultura” se diluísse e espalhasse pelo resto dos degraus à boa maneira abstracta. Surrealista já era aquela cena. Após alguns minutos de conversa, em lugar arejado e contra o vento, claro está, Dona Palmira, a porteira, ouviu atentamente o que poderiam fazer caso pretendessem apresentar denúncia contra o homem, explicando desde logo a condição de quase indigência em que este vivia e por fim lá condescendeu em limpar o degrau logo pela manhã, mas que não queria ver a brincadeira repetida. O azarado residente, que pisara a poia, atirou os chinelos para o contentor do lixo e lá regressou, a praguejar, para casa, com os restantes moradores, para retomarem os seus sonos. O Valente dirigiu-se ao bêbado. Este estava visivelmente aliviado; de umas palmadas dos moradores já se safara e agora, restava ouvir o que a “justiça” policial lhe iria ditar. E esta foi condescendente, com o pivete que exalava, pouca seria a vontade de os tipos da bófia lhe querem tocar. Após uma daquelas lições de moral, bons costumes e moralidade, das que entram a cem e saem a duzentos, claro está, lá mandámos o “garrafão” seguir à sua vida.

- Vai lá à tua vida e vê se vais tomar um banho.

- Vou já, vou já.

- Agora não te esqueças de tornar a fazer o mesmo e que eu te apanhe – lançou-lhe o Valente, em jeito de despedida e aviso – apanhas tudo para dentro dos bolsos

- Só se não puder – respondeu para si mesmo, entre dentes, esquecendo-se talvez que o seu estado etilizado ampliava a sua voz, ou então, pior que isso, convencido que o cheiro era uma couraça defensiva que afastava a vontade de intervir dos cívicos. Quem não gostou foi o Valente. Revoltado, quando pensava ter resolvido a coisa de forma aceitável, nem se importando sequer com a falta de humildade do infractor perante o facto de o ter safo de uma série de chatices, resolveu então entrar em acção com uma decisão digna de Salomão. Dirigiu-se ao porta luvas do carro patrulha, retirou um par de luvas de borracha, agarrou vigorosamente a “asa” do “garrafão” e arrastou-o até junto da sua obra de arte.

- Ai ele é isso? Então, anda cá! Podes começar a limpar…

- Limpo com quê? Com as mãos? E ponho onde, em cima de si? – respondeu o atrevido e mal agradecido homem, ao qual os vapores de álcool deveria estar a toldar novamente o juízo – limpo com?

- Vais agarrar nisso tudo com as mãos, vais guardar dentro dos teus bolsos e vais pôr-te a andar daqui para tua casa, senão…

- Quer ver que me faz apanhá-la com a boca, não?! – insistiu o ébrio, com um riso desafiador.

O Valente, olhou-o então olhos nos olhos, aguentou firme o pivete, e tal foi a intensidade e frieza das suas palavras, que o outro perdeu o sorriso, como se estivera perante a visão de uma aparição.

- Tens dúvidas?...

O tipo, ao qual o Valente só pretendera dar um último susto, perante a sua arrogância e arrojo, tomou-se de tal pânico, que limpou a entrada do prédio, tal como o Agente lhe ordenara, deixando pouco mais que vestígios para a porteira limpar, pela manhã. Seguiu o seu caminho, sem dizer mais uma palavra, com a sua “arte” na algibeira. Qualquer infractor, na posse das suas faculdades mentais normais, teria levado tão a sério uma ordem de um agente da Polícia. Se ainda restavam dúvidas que o álcool faz-nos tomar atitudes impensáveis, esta esmoreceu de vez qualquer laivo dessas dúvidas.

- Viste aquilo? O tipo é doido!...

- Doido não sei, agora que está bêbado, isso está!...

segunda-feira, outubro 31

O Morcego (parte II)


As dúvidas ficaram desfeitas. Por mais credibilidade que se desse aos atentos trabalhadores (só alguém muito fora do seu perfeito juízo estaria ali a brincar com a polícia), depois de revolver a casa da velhota, nem uma barata se vira fugir à invasão policial. Até as gavetas e portas da mesa-de-cabeceira foram abertas (seria impossível, mas, com o que já se viu nesta profissão!). Do roupeiro as poucas roupas que vieram para fora, não traziam “brinde” e debaixo do velho sofá da sala, não cabia a mão de uma criança. Raios, seria este um assaltante com dotes de invisibilidade? Não fora a sagrada família, cuidadosamente mantida num altar, no canto do quarto e seria de desconfiar se a senhora não se dedicaria às Ciências do Oculto e algum espírito teria então entrado sem se fazer convidado.
- Avozinha, parece que nada tem a temer. Se alguém cá esteve não mexeu em nada e saiu sem que o pessoal da obra se tenha apercebido – disse o Almeida à locatária.
- Antes assim, filhos, antes assim – respondeu ela, aliviada mas em tom pouco convincente – mas e se ele volta?
Era compreensível o receio da velhota. Aquele local era na realidade bastante isolado e a partir do final da noite, muito pouco movimentado. A pobre criatura nem telefone tinha e se gritasse, mesmo que fosse na rua, só com muita sorte alguém lhe poderia valer. Estava visto que a senhora não teria descanso nos próximos dias e alguns indícios davam a entender que alguém tentara mesmo entrar lá dentro. A situação foi colocada às instâncias superiores que determinou a uma agente feminina que permanecesse em casa com a senhora, durante essa noite e ficou deliberado que os carros da área passariam naquela zona com frequência para se inteirarem da situação. A mulher ficou mais aliviada e logo ali fez questão de oferecer um café ou um chá aos Guardas que por ali passassem. Mais não podia fazer, afirmou ela, como forma singela de agradecimento pela prontidão dos cívicos. Ficou assim combinado.
*****
- Maravilha este Frango!
- Podem crer, em especial porque há muito que não me sentava para comer desde que ando neste turno. Parece que as ocorrências esperam a hora da “janta”.
- Bem, sendo assim, vamos retomar a patrulha. Passamos pela casa da velhota para ver se está tudo bem com ela.
Ao sentir a viatura policial parar à porta, a dona da casa e a agente abriram a porta, convidando os polícias a entrar.
- Entrem, entrem se fazem o favor. Já jantaram? Aqui a menina vai jantar comigo. Ia agora começar a aquecer a comida. É simples, mas de boa vontade – convidou a velhota.
- Obrigados, minha senhora. Nós comemos sempre antes das sete da tarde, quando começa a escurecer. Depois, quase sempre não há tempo. Já cá canta – agradeceu Almeida, dando umas palmadinhas no seu proeminente estômago – viemos só ver se estava tudo bem. Se houver algo de estranho, aqui a nossa colega informa pelo rádio e nós vimos logo.
- Mas então têm de tomar um cafezinho. Faço questão – replicou a velhota enquanto ia empurrando os polícias para o interior da casa.
O pessoal, não querendo fazer a desfeita à simpática avozinha, lá entrou e esta mandou-os sentar na sala.
- Vou só por a água a aquecer e aproveito para pôr a sopa ao lume.
Depois de executada esta tarefa, a senhora veio para a sala e lá continuou a tagarelar com os agentes, lamentando-se do isolamento em que ficara desde que a zona das Laranjeiras fora invadida por uma série de empreendimentos habitacionais. Qual não é a nossa surpresa quando, enquanto ouvíamos pacientemente a nossa idosa anfitriã, do interior da cozinha ouve-se um estrondoso ruído de tachos a cair, secundado de um sonoro e “dorido” FODAAA-SE!!.... A reacção foi imediata. Como se o sofá tivesse um dispositivo de ejecção, saltámos todos, precipitando-nos para a cozinha. Ali, junto ao fogão, um velho conhecido nosso, o “Necas do Alto”, estava estatelado no chão, agarrado ao seu pé direito, guinchando de dores.
- Não me bata “Sô” guarda… ai o meu pé!... Ai minha mãezinha! Ai o meu pé – gritava o meliante com uma voz misturada de terror e dor.
- Anda cá meu “melro” – o Almeida pegou-lhe pelo colarinho e levantou os seus quarenta e poucos quilos como quem levanta um gato do chão – de onde saíste tu meu sacana? Quando entraste? Melhor, por onde entraste tu?
A janela da cozinha continuava fechada e o único acesso era através da sala. Era fácil de concluir que aquele tipo tinha ali estado desde sempre.
- Onde estavas tu meu safado? Onde estavas escondido? Ainda há pouco saíste da “pildra” e voltaste ao mesmo! Bem que me tinham dito que já tinhas voltado para o Alto dos Moinhos! Mas onde estavas tu meu rafeiro?
- Ai o meu pé! Não me bata, ai o meu pé que está a arder!... – continuava o desgraçado, ignorando as perguntas e sacudidelas do portentoso Almeida.
Perante tais queixas, não foi difícil de resolver o mistério. Olhámos todos para o pé, depois para a grande cafeteira caída junto ao fogão, o chão, todo molhado com água fumegante e finalmente, reparámos na chaminé, daquelas antigas, com uma caixa de saída volumosa e com aqueles ferros que outrora eram usados para pendurar enchidos. Alguém se aproximou desta e concluiu o óbvio: O Necas entrara na casa e ao aperceber-se da presença da polícia, a sua limitada mas experiente massa encefálica, transmitira a ordem ao seu corpo franzino, para se esconder no seu interior e aguardar o melhor momento para abandonar o local sem problemas. Não contara com aqueles factores que tornam o crime igual a qualquer outra actividade praticada pelo pacato e comum mortal: a imperfeição e o imprevisto. E os imprevistos foram vários; a persistência dos trabalhadores da obra, a vontade de ajudar a pobre senhora, que permitiu a permanência de uma agente junto a ela e por fim, um inconveniente fogão, ligado, com uma panela de sopa e uma cafeteira de água a ferver. Ao sentir o desconforto do calor gerado a seus pés, a um passo de se transformar em presunto fumado, ao tentar sair, mergulhara o seu pé na água em ebulição e a partir daí, terminou a sua tentativa de fuga. O Necas, pulara da chaminé para a panela. A partir desse dia, juntou ao seu “nome de guerra” o justo cognome de “O Morcego”.

 

ESTE BLOG FOI OPTIMIZADO PARA VISUALIZAÇÃO EM 1024X768 Pixels em Google -Chrome,ver. 24.0.1312.57 m ©COPYRIGHT© de Júlio Vaz de Carvalho. ©COISAS 2004-2025, é um WEBBOLG da responsabilidade do seu autor, o seu conteúdo pode ser reproduzido sempre que referidas as fontes e autores. Todos os textos, notícias, etc., que sejam da responsabilidade de terceiros, pessoais ou institucionais,serão devidamente identificados, sempre que possí­vel, bem como serão referidos os locais a partir dos quais poderão ser consultados no contexto original.Todos os trabalhos publicados por colaboradores do blog, podem ser copiados e divulgados, sempre que seja indicada a sua origem, não carecendo de autorização dos mesmos, caso aqueles assim o manifestem. COISAS é um Blog QUASE APOLíTICO e não se rege por ideias pré-concebidas unicamente apoiando causas de reconhecido interesse para a Humanidade, sempre que elas sejam isentas e objecto de reconhecimento universal, que vão desde a luta contra os cocós dos Lu-Lus a minar os passeios e portas de casas à legítima pretenção de ver restaurada a Monarquia em Portugal. Sejam bem vindos e Bem Haja por estarem aqui.

Who Links Here