sábado, agosto 13

TIQUINHO


Pensei que nunca mais veria aquele rapazola de cara reguila, ar límpido de criança estampado na face mas de interior curtido e precocemente moldado a uma vida adulta em demasia à qual tão cedo foi lançado. Velosa tinha o nome de guerra de Tiquinho; o porquê da alcunha, como a maioria das alcunhas, morrerá no segredo e esquecimento da irmandade dos meninos de rua do Funchal, que assim o baptizou. Ao fim de muitas peripécias, rumou ao Continente da República, com destino à Casa Pia, salvo erro.

Foi fácil conhecer a breve história do “chavelhinha” o qual aos seus 12 anos contava no seu currículo um rol de acções dignas de uma versão juvenil do Zé do Telhado. Desde o simples furto de roupa do estendal à inumana exposição do seu corpo aos olhos de repugnantes e prazeres doentios de pederastas em gozo das suas repugnantes férias na Ilha, Tiquinho era um verdadeiro manual do crime, versão de bolso. Toda a sua revolta para com a sociedade, que o rejeitou no mesmo dia em que foi rejeitado pelos do seu sangue, era transmitida pelos seus actos, contra tudo e contra todos quantos representavam essa sociedade, crua, vil que nunca lhe deixou conhecer o verdadeiro prazer de ser simplesmente uma criança. Claro que aqui se incluía todo o “Staff” do colégio onde, desde tenra idade, fora colocado em regime de internato e de cuja clausura forçada fintava à mais ínfima oportunidade. Talvez fosse mais fácil contabilizar o tempo na Instituição por horas fora da mesma, que propriamente os dias passados intramuros; realmente aqui havia um deficit descomunal.

Talvez por nunca o ter tratado como se de um criminoso adulto, não que nunca lhe tenha dado uns açoitezitos nas primeiras intervenções que com ele tive, Tiquinho que conhecia a minha firmeza perante as suas acções, nutria por mim um certo respeito, diria mesmo consideração, por uma vez o ter livrado de um verdadeiro linchamento popular, depois de ter sido surpreendido a aliviar umas caixas de chocolates de uma carrinha de entregas. O meu acto, não direi que foi heróico mas a coisa esteve tremida para o meu lado ao tentar fazer entender que era um menor e de nada adiantaria uma acção daquelas. Perante de uma série de varapaus e até algumas típicas foicinhas de cortar cachos de bananas, os indignados ilhéus, juntaram o facto de estar a tirar-lhes o prazer de umas bordoadas no pequeno à minha condição de “cubano”, imediatamente denunciada na minha voz e por alguns dos justiceiros mais à retaguarda. Até o Tiquinho, que poderia ter fugido no meio da confusão, tal e qual um solidário camarada de armas, manteve-se firme, ali a meu lado e preparou-se para, juntamente com os agentes da lei, vender cara a sua liberdade. Encostou-se a mim, cerrou os punhos de forma ameaçadora e ficou ali, com ar marcial, como que esperando a minha ordem para carregar sobre os seus carrascos. Não sei se foi a surpresa de me ter mantido firme e ter avisado, que ao mais mínimo gesto atentatório contra a minha integridade física, de algum dos meus rapazes e sobretudo do jovem já sob custódia policial, usaria de meios coercivos para com avançasse ou da atitude do “mitrinha” ali a meu lado, certo é que a populaça lá se demoveu de fazer a sua justiça de rua e retirou, limitando as suas agressões a meras palavras insultuosas e promessas de adiamento da “questão” para outro dia. O Tiquinho, recolheu, claro que temporariamente, à sua “prisão”.

Algumas semanas após este episódio, estava eu regaladamente a preparar-me para ir descolar as paredes do estômago com uma boa bifana em pão-de-alho, regada a preceito com umas “Corais” bem fresquinhas, quando aparece, esbaforido, um dos Agentes da minha Secção, o sempre vigilante Gomes que me informa estar a decorrer um assalto a um café próximo dali. Que raios, logo agora que era só descer a avenida até ao “Santinho”, ali na Marina do Funchal e tinha que acontecer logo agora um assalto. Entrei dentro do Croma da Brigada e após duas “bufadelas na cavalagem”, lá estávamos nós, à porta do dito estabelecimento.

Estava escuro como breu. O café, encontrava-se parcialmente escondido pela estrutura de um viaduto recentemente construído o qual tapava a entrada de luz da rua para o interior. Que descuidados que os tipos eram! Tinham deixado a porta escancarada, melhor ainda, as duas portadas. Seguidos os procedimentos habituais em circunstâncias deste tipo, existindo fortes indícios de se encontrar ainda alguém no interior, progredi, junto com a rapaziada, embrenhando-nos na escuridão do café. Do fundo deste, por baixo de uma porta, via-se um feixe de luz entrecortado por sombras de alguém que se encontrava no interior. Pé ante pé, fui-me aproximando, evitando quaisquer barulhos que denunciassem a nossa presença. Eis qual não é o meu espanto quando, a meio da progressão, dou por mim travado por dois tubos de metal sobrepostos de uma caçadeira, contra os quais tinha avançado, entre a cegueira da noite. Gelei de imediato; não teria sequer tempo de ouvir o percutor caso o tipo do outro extremo decidisse mandar-me tratar da contabilidade com o Criador. Num acto misto de medo e desespero, soltei um sibilino e longamente suspirado “Foda-se!”,. Acho que não me urinei porque o caudal de líquidos do meu corpo acorreu em massa para os poros que jorraram mais suor que água o Niagara em pleno degelo. Numa reacção quase instintiva, perante a falta de decisão do meu adversário em fazer-me uns furos extras no peito, rodei ligeiramente para o lado ao mesmo tempo que agarrei os canos da arma, puxando-a para o lado e na sequência lancei-me sobre o vulto que teimava em não a largar. Rolámos ambos pelo solo, fazendo desabar algumas pirâmides de cadeiras, postas sobre as mesas do café. Foi então que gritei – Arma – enquanto alguém accionava o interruptor da luz do estabelecimento. Por breves momentos fiquei sem fala. Ali, debaixo de mim, estava o Tiquinho com ar de culpa assumida misturado com esgares de clemência. O jovem rebelde, em tom de desafio, olhou-me e aventou:

- Vai prender-me Sr. Cruz?

- Deixa-te de merdas pá!... – aventei eu, ainda mal refeito do choque – Tirem-me este “chavelha” daqui, antes que me passe uma ideia má pela cabeça.

Sentei-me por breves instantes; as pernas ainda tremiam, não sei se da comoção, do susto, de raiva, ou talvez tudo isto misturado. Olhei para a porta para a qual me dirigia antes do meu encontro com o Tiquinho. Do interior da arrecadação, saiu um autêntico sindicato de jovens delinquentes, alguns ainda transportando o produto do saque composto por algumas laranjadas, bolos, pastilhas elásticas e outras guloseimas. Os mais atrevidotes tinham feito uma sortida ao tabaco que se transferira para os bolsos dos meliantes. Grandes sacaninhas estes. Os rapazolas saíam de lá de dentro enquanto depunham o produto do saque sobre o balcão e ainda tinham a lata de reclamar para si o direito de pelo menos poder ficar com um macito de Bingo. Grande lata, sim senhor!

Depois de apreendida a arma ao proprietário, entretanto chegado, passado que foi o respectivo correctivo por este, contra o que se encontra estatuído, deixar uma arma de caça no interior de um estabelecimento e, pior de tudo, carregada e pronta a fazer fogo, dirigi-me a um dos carros patrulha onde se encontrava um sorridente Tiquinho. Este, com ar de desafio disse-me:

- Tinha de ser...

- Desta vez é que vais daqui embora...

- G’anda cagaço!...

- Ainda te ris seu sacana!?

- Acha que lhe ia atirar na cara? Nem sei disparar…

- Maluco para isso és tu!

- Não, ao senhor nunca, vi logo quando entrou que era você!

- Não sabias que se te tivesse visto antes poderias ter levado um tiro?

- Pois… se tivesse que ser. Estamos sujeitos, é a vida. Mas a si nunca atiraria.

Acredito, aliás, mentiria se dissesse acreditar no contrário, que não foi pela falta de conhecimento sobre o manuseamento da arma que o Tiquinho não disparou. Antes acredito e vou continuar a acreditar que aquele miúdo, precocemente adormecido dos seus sonhos de criança, despertou naquele momento, mesmo que momentaneamente e mostrou que o seu lado bom estava dentro de si, escondido, mas ainda dentro do seu jovem ser, à espera de se manifestar a quem entendesse ser merecedor de um gesto de gratidão. Porque chego a esta conclusão? Ele tirou-me as dúvidas:

- Você é um bófia porreiro…

Anos mais tarde, enquanto estacionava o carro na zona do Hospital de Santa Maria, ao sair do veículo, alguém, vestido com a farda verde da EMEL, dirigiu-se-me nos seguintes termos:

- Se for por pouco tempo... vá lá que não precisa de tirar o "ticket". Por mim, você nem pagava nada.

Fiquei feliz; reconheci de imediato a sua voz, ainda de criança, com aquele inconfundível sotaque de Câmara de Lobos. Grande Tiquinho, parabéns pá!

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