quinta-feira, julho 15

RUMO AO HOMEM

RUMO AO HOMEM

Um sábio ser, um dia, veio e instruiu-nos a nós, os ignorantes.
Ensinou-nos a falar. Antes só sabíamos cantar.

Foi uma tentação. Com certeza devíamos aceitar. Agora todos sabemos falar, após alguns anos de infância e balbucios. Mas agora já não somos como dantes. Já não é aquele encanto.

Faziam-se coisas. Havia empresas, reuniões, obras, preparações rumo ao futuro. Tínhamos árvores. De quase tudo se ocupava ele. Outrora governava-nos. Não precisávamos de querer, de decidir. Ainda podíamos folgar. Desapareceu, sem conseguirmos perceber.

Agora tudo nos incumbe a nós, e ele deixa andar, já não se interessa.
É como se não desse por nada.

Não foi a primeira vez que ele se desligou.
A seu ver, é certo não sermos aceitáveis, nem sequer muito interessantes. Os nossos pais-predecessores sabiam interessá-lo. Eles sim, sabiam o que se impunha para não ficarem sozinhos, fazendo-o voltar. Nós porém não sabemos, não demos com o meio necessário.

Dantes uma música unia-nos. Uma música que nos fora dada para isso, para a ele voltarmos, para voltarmos ao ser tão importante que podia governar-nos a terra que era nossa. Uma certa música. Essa música, que nos fora legada para ser o elo, voltava a pô-lo em contacto com a gente. Mas foi perdida.

Alguns de nós deixam a tribo para ir viver com os animais selvagens. Nós deixamo-los ir.
Os animais selvagens não os aceitam. Não se deixam enganar por inclinações tumultuosas, por meras intenções.
Deste lado o fosso é grande e largo, um fosso que actualmente não pode ser coberto.

Porque nós não somos animais. Embora de certo modo ainda não sejamos homens perfeitamente. Havemos de sê-lo. Convém não desesperar. Já o fomos. Fomo-lo em tempos recuados. Ao mesmo tempo que esses que hoje em dia nos bosques e na savana inteiramente voltaram a ser animais, mas respeitamo-los. Vedamo-nos vigiar as suas vidas ou indagar seja o que for sobre essas vidas, o que desta ou daquela maneira talvez os humilhasse.
Porque, apesar de termos ficado, quanto a nós, mais de meios-homens sobretudo no aspecto, e por isso à frente dessas vidas, é de recear e é possível que só depois delas de novo nos tornemos homens completos e verídicos. Não se pode saber. Não se pode ter a certeza. Gabar-se a gente disso não cairia bem.
Por enquanto, a quatro patas ou de outro jeito, na floresta, em tocas, elas aguardam o seu longínquo futuro de homens, com grande dignidade, com uma dignidade exemplar.

Tradução de Júlio Henriques
Textos extraídos de Chemins cherchés Chemins perdus Transgressions, Gallimard, Paris, 1981

1 comentário:

Anónimo disse...

Acerca de Henri Michaux:

Michaux, quem será? Um poeta que cingiu o século XX e que a droga não destruiu. Nascido na Bélgica, mas voltando a França, da América do Sul, quando a guerra foi declarada, não para se alistar (frágil saúde) mas para se declarar francês no momento nevrálgico. Este francês que as mulheres desejavam apesar da calvície e da misantropia, mas que percorria a vida na espiritualidade, na dor das amizades escolhidas e na maior nudez. Encerrado nas imagens, no papel, nos lápis, o homem da Viagem e das viagens nunca se suspende, apelando os leitores e sobretudo a leitora a perpetuá-lo, ele cuja única descendência em nós reside, que tão poucos somos. Um homem, em suma, austero e infinito. (Joëlle Ghazarian)


in: Revista UTOPIA http://www.utopia.pt/

 

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